
Mestra Alice de Oliveira nasceu em Guapiara, no interior de São Paulo, e encontrou nas fibras naturais e nos saberes herdados de sua família um caminho de vida, trabalho e transmissão de conhecimento. Aprendeu ainda criança, observando o pai e outras mulheres da comunidade, a plantar e a transformar palha de milho, taboa e fibra de bananeira em objetos trançados à mão.
Alice é guardiã de um conjunto de conhecimentos que envolve cultivo, seleção e conservação de sementes, respeito aos ciclos da natureza e técnicas tradicionais de trançado. As variedades de milho crioulo que cultiva são também sua matéria-prima e carregam uma história que atravessa gerações. Em seu trabalho, o plantio e o fazer artesanal estão profundamente conectados: preservar a semente é garantir a continuidade de um modo de fazer e, ao mesmo tempo, de uma memória cultural.
Sua trajetória também é marcada pela mobilização de outras mulheres e pela criação de espaços de aprendizagem e trabalho coletivo. A partir dos anos 2000, Alice passou a se dedicar cada vez mais à transmissão de seus conhecimentos, participando da criação de uma cooperativa e, posteriormente, da Associação de Mulheres Artesãs de Guapiara Arte e Vida. Em 2017, a iniciativa recebeu o Selo de Certificação de Tecnologia Social da Fundação Banco do Brasil, reconhecimento concedido a experiências que apresentam resultados relevantes para uma comunidade e podem ser reaplicadas em outros territórios. Reconhecida pelo Programa do Artesanato Brasileiro como mestra artesã, percorreu diferentes territórios para ministrar oficinas em escolas, universidades, instituições culturais e comunidades, compartilhando não apenas técnicas, mas também os conhecimentos associados às sementes, ao território e às formas tradicionais de produzir.
O trabalho de Alice também ajuda a iluminar a relação entre Guapiara, o milho crioulo e o antigo Caminho de Peabiru, rota indígena que conectava diferentes territórios da América do Sul. Sua produção tornou-se referência para compreender a permanência desses saberes no território paulista e a circulação histórica das variedades de milho. Ao participar de encontros de troca de sementes e de iniciativas culturais, Alice mantém vivo um conhecimento que se constrói tanto pela transmissão quanto pelo intercâmbio com outros guardiões de sementes e mestres de diferentes regiões.
Hoje, entre o fazer artesanal, o cultivo e a formação de novas gerações, Alice segue imaginando formas de ampliar esse legado. Sonha com um espaço próprio onde possa plantar, conservar sementes, criar e ensinar. Em suas peças, feitas a partir de matérias-primas que muitas vezes seriam descartadas, transforma natureza e memória em objetos de uso e decoração que carregam a singularidade de um território e a marca de quem aprendeu a fazer com as próprias mãos.
Confira abaixo mais sobre sua história, visão e sonhos para o artesanato brasileiro.
O que o artesanato representa na sua vida e na história da sua comunidade?
Primeiro de tudo, eu acho representa a liberdade, sabe? Eu aprendi ainda criança, mas no meio do caminho parei de fazer artesanato. Lá em Guapiara todo mundo me conhece e sabe da minha história, que eu trabalhei muito tempo como pedreira. Mas em 2005 eu decidi voltar a fazer o artesanato e viver disso. Hoje, além de ser o único sustento que eu tenho, o meu trabalho mesmo, ainda ele me libertou de muita coisa. Me abriu outros caminhos, me fez conhecer outras pessoas.
Para as mulheres da comunidade também é assim, uma forma de liberdade. Vejo isso, acompanho essas mulheres desde 2005. Foi quando me chamaram para ensinar elas a fazer o trabalho com a palha do milho, os trançados, e ter como pagamento uma cesta básica. Esse acordo durou só dois meses, mas eu me apeguei e já queria ajudar as mulheres a mudar de vida, mostrar para elas que elas poderiam ter o dinheiro delas, o salário delas, em vez de ficar dependendo do esposo, do companheiro para tudo. Então eu vejo como isso melhorou a vida delas e elas encontraram uma fonte de renda e uma forma ajudar no sustento de casa.
Você ensina e mobiliza as pessoas através desse conhecimento, que é também uma fonte de renda. Acho que isso é muito importante quando você fala da liberdade para as mulheres, que têm muita dificuldade de ter acesso a outras fontes. Como que você enxerga esse papel, o papel da mestra ou de uma liderança no fortalecimento do território?
Quando você tem uma pessoa que faz esse papel, que mostra pelo próprio exemplo que dá certo, que ela consegue também, elas acreditam.
Em Guapiara não tem trabalho, a não ser trabalho na roça. E aí muitas mulheres estavam sofrendo muito, porque elas plantavam tomate e tomate tem muito veneno. Agora não, agora elas plantam milho crioulo sem veneno e faz arte com as palhas do milho.
Hoje tem uma das artesãs que está faturando muito mais que o marido, e isso é uma conquista.
Você fez todo esse processo de revitalização do cultivo do milho crioulo e com isso tem promovido muita transformação, na saúde das agricultoras, na geração de renda e no bem-estar. Além de ganhar mais dinheiro, elas estão sendo criativas, vendo o trabalho delas também como fonte de prazer. Como isso tem impactado não só o grupo, mas a cidade de Guapiara, que está cada vez mais conhecida pelo cultivo do milho crioulo?
Quando eu comecei a resgatar as sementes, eu fui buscar no sítio próximo onde nasci. O vizinho me conhecia e doou as primeiras sementes em 2008. Eram as mesmas sementes que meu pai plantava. Meu pai faleceu em 1998, então mais de dez anos depois, essas sementes voltaram para nossa terra, essas foram as primeiras sementes.
Hoje a maioria do povo de fora vê Guapiara, as Mulheres da Arte e Vida, como guardiãs da semente crioula. Agora ela está fazendo parte de um roteiro do milho, distribuímos sementes para várias regiões para plantar os milhos crioulos, aldeias, quilombos, assentamentos, muita produção de milho existe pelas sementes da Arte e Vida.
A agricultura, a troca de sementes e a produção artesanal estão profundamente ligadas às práticas de trabalho coletivo e em rede. No caso de vocês, essa relação aparece tanto no fato de serem agricultoras e utilizarem a palha do milho como matéria-prima para o trançado quanto na própria forma de organização do trabalho. Como o trabalho coletivo e a troca de saberes, sementes e experiências entre as agricultoras contribuem para fortalecer e manter viva a produção artesanal?
Alice – Essa união em redes é tudo para nós. Porque uma coisa está conectada à outra e quando estamos juntas, a porta que se abre é maior. Porta não, um portão! Nós participamos de vários eventos de trocas de sementes no Brasil e para todos sempre levamos nossa arte. Não vamos só com as sementes porque, para nós, foi o artesanato que ajudou a salvar as sementes. Se não fosse o artesanato a gente não tava plantando milho crioulo hoje.
Além disso, trabalhar coletivamente dá mais oportunidade para participar de eventos, de feiras. Nós participamos de três, quatro, cinco eventos por mês. E com isso as mulheres começaram a sair de casa, a conhecer outros lugares, outras pessoas, e com isso se sentem mais confiantes e seguras.
Nós já distribuímos sementes para muitos lugares, para centenas de mulheres com parceiros como o ISA e o SESC.
E que você deseja para o futuro do artesanato e para as novas gerações?
Alice – Eu tenho andado bastante e vejo a necessidade de ter mais espaços para repasse das técnicas. O que eu desejo para o futuro é que as crianças comecem a aprender desde criança.
E que elas não vejam o artesanato só com uma coisa, que tenham mais carinho. Eu digo isso por mim, que aprendi quando era criança e agora sempre que eu vejo qualquer pedaço de palha, cipó, assim, eu tenho essa memória.
No futuro que gostaria que todas as escolas tivessem, nem que fosse uma vez por semana, uma aula de artesanato, mas não qualquer artesanato. Seria esse artesanato raiz, que existe há milhares de anos.
Igual esse que eu sei fazer. Hoje eu tenho quase 60 anos e eu lembro de quando tinha 6, de ver as senhorinhas fazendo, hoje elas teriam mais de 100 anos. Fazendo a mesma coisa que eu faço hoje.
Por isso que sempre que uma escola me chama para ensinar, eu vou muito feliz. Deixo minhas sementinhas.
*O Programa de Embaixadores/as da Rede Artesol busca reconhecer, fortalecer e articular lideranças locais que representam e promovem os valores, os saberes e as ações da Rede Artesol em seus territórios, atuando como pontes entre suas comunidades e a rede nacional.
