Sobre as criações
Os repassos mineiros, técnica principal utilizada no Ateliê de Tecelagem Hermantina Drummond, são as padronagens típicas da região, representados em um conjunto de códigos e sequências para a tecelagem e tecidos com algodão. No Ateliê, são registrados de forma artesanal em cadernos, sacos de pão e folhas avulsas que orientam a composição do tear e indicam o desenho que será formado.
Já a técnica de kilim, que utiliza lã de carneiro e é, atualmente, menos utilizada, as tecelãs desenvolvem novas composições com o auxílio de papel quadriculado. Em ambas técnicas, é preciso considerar todas as etapas e peças do tear: a urdideira (preparação do urdume), o casal (distribuição dos fios), os liços (passagem dos fios), o pente e as tabocas (que evitam o emaranhamento).
A produção do Ateliê abrange itens para a casa, como guardanapos, panos de copa, toalhas de lavabo e de mesa, tapetes de diversos tamanhos, caminhos de mesa, passadeiras, jogos americanos e colchas; e peças de vestuário e acessórios, como cachecóis, xales, echarpes e bolsas. A matéria-prima principal é o algodão, que, antigamente, era plantado e fiado no próprio território. A lã também já foi utilizada, mas hoje está em desuso.

A montagem de um tear leva de dois a três dias. Após o urdimento, o tempo de confecção de cada peça varia conforme a complexidade do modelo e a experiência da tecelã. O trabalho no Ateliê é organizado de forma colaborativa e autônoma, e a produção é orientada pela demanda de vendas e pelo estoque disponível. As iniciantes contam com a mentoria das mais experientes e começam produzindo itens mais simples, como panos de prato.
Os teares também são compartilhados entre as artesãs, o que demonstra a beleza do trabalho colaborativo, pois a força de bater o pente e pisar no pedal são singulares em cada tecelã. A comercialização da produção é realizada no próprio Ateliê, dentro da tecelagem, e na loja localizada no Museu Regional Dona Beja.
Sobre quem cria
O Ateliê de Tecelagem Hermantina Drummond conta com cinco tecelãs e uma coordenadora, além do apoio eventual de ex-funcionárias que participam de projetos pontuais. As tecelãs são servidoras públicas do município, pois o espaço integra a Fundação Cultural Calmon Barreto (FCCB), uma autarquia da Prefeitura Municipal de Araxá dedicada a promover, incentivar e preservar a memória e o patrimônio histórico e artesanal regional.
Essa trajetória começou em 1984, quando a Fundação, então vinculada ao Museu Regional Dona Beja, criou o Centro de Artesanato de Araxá para salvaguardar a técnica do tear mineiro e capacitar artesãos(ãs) locais. No ano seguinte, a instituição conquistou sua sede própria no edifício da antiga Estação Ferroviária Oeste de Minas, destinando um espaço exclusivo para o aprendizado, a produção e a venda das peças de tecelagem.
O nome do Ateliê homenageia Hermantina Drummond, artesã araxaense que marcou a história da cidade pelo fomento e divulgação do artesanato local, enquanto a Fundação leva o nome de seu patrono, o artista Calmon Barreto.
Sobre o território
O nome Araxá significa “lugar onde primeiro se vê o sol”, e tem origem na língua Tupi-Guarani, pertencente aos diversos povos indígenas que habitavam originalmente a região. A cidade fez parte do ciclo do ouro no Brasil colonial, e, por isso, pertenceu temporariamente à Capitania de Goiás, voltando a ser parte de Minas Gerais em 1816. Pouco antes desse período, o território integrou uma importante área quilombola que marcou o Triângulo Mineiro, chamada de Quilombo dos Ambrósio.
Com o declínio da mineração, a população foi em busca de novas formas e fontes de trabalho, e encontrou na região de Barreiro as águas mineralizadas que impulsionam a pecuária e popularizaram Araxá. Em paralelo, a tecelagem ocupou um papel relevante na história araxaense. Os tecidos de algodão e lã eram feitos para atividades domésticas, mas também se tornaram fonte de renda local, exportados para vilas vizinhas. Entre as peças mais tradicionais estavam as colchas, símbolos do lar e frequentemente oferecidas como presentes em ocasiões especiais, como casamentos.
Entre as décadas de 1920 e 1940, o turismo surgiu como atividade econômica no embalo das águas termais do Barreiro, culminando na construção de grandes empreendimentos hoteleiros, como o Grande Hotel Araxá, ícone arquitetônico da cidade que atrai visitantes até hoje. A identidade cultural local conta ainda com figuras como Dona Beja, símbolo de resistência da cidade que já foi retratada na dramaturgia brasileira.






