A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Mestre Alcides Ribeiro dos Santos


Viola-de-Cocho é um instrumento musical tradicional das culturas populares do centro-oeste brasileiro, mais precisamente dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

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Sobre as criações

Viola-de-Cocho é um instrumento musical tradicional das culturas populares do centro-oeste brasileiro, mais precisamente dos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Recebe este nome por ser confeccionada a partir de um único tronco de madeira esculpido no formato de viola, aos moldes de fabricação de um cocho (objeto lavrado em uma tora maciça de árvore e usado para ofertar alimento aos animais na zona rural). O pequeno “cocho” corresponde à parte da caixa de ressonância do instrumento, onde são fixados tampo, cavalete, espelho, rastilho e cravelhas, que o caracterizam.

A viola é a protagonista de expressões culturais de origem indígena típicas da região: o Cururu e o Siriri, música e dança, respectivamente, que se perpetuaram nas áreas ribeirinhas dessas localidades. São saberes populares tradicionais presentes muito antes da divisão dos dois estados – acredita-se que há mais de 300 anos. Os “cururueiros” mais antigos dizem que a viola é fruto de uma tentativa de reproduzir a guitarra portuguesa, em uma época em que os colonizadores trouxeram seus pertences e entre eles, as artes além-mar. Ambas possuem a mesma afinação.

“A primeira tentativa foi com um cocho pra colocar sal pra gado. Fizeram as mesmas ferramentas que usavam pra cavar os cochos do curral de boi. Copiaram a viola. Mas a guitarra portuguesa tem varias cordas e aqui só colocaram cinco cordas e conseguiram a mesma afinação, batendo todas elas”.

Mestre Alcides Ribeiro dos Santos

De lá pra cá o instrumento que se apresenta com cinco ordens de cordas simples sofreu muitas mudanças. Foi aprimorado no acabamento. “Pai fazia viola só pra consumo dele. Não tinha esse consumo que tem hoje.” Praticamente toda a madeira que Alcides utiliza na fabricação é de reaproveitamento mas possui autorização do IBAMA para corte, com uso restrito a produção da viola. São várias as madeiras utilizadas em sua fabricação: para o corpo do instrumento, a ximbuva e o sarã, para o tampo, a raiz de figueira branca e para as demais partes, cedro. Após o corte Alcides já entalha a peça, do contrário a madeira estraga. Em seguida põe ao sol para secar uma, duas semanas ou mais. “Descansa no sol igual pão”. Depois monta e dá o acabamento. Originalmente as violas armavam-se com quatro cordas de tripa (que foram substituídas por linhas de pescar – segundo os violeiros bem inferiores às de tripa) e uma revestida de metal. Alcides reúne ferramentas com mais de meio século, mais um legado deixado pelos antigos.

Cada artesão desenvolve a viola à seu modo e isso também é percebido de acordo com a região.

“Meu pai não usava muito metro, era tudo no olho. Já eu meço tudo. A viola de meu pai parece baguari, fica sondando peixe de um lado para o outro. Apesar da Viola-de-Cocho ter sido reconhecida pelo IPHAN como patrimônio imaterial brasileiro em dezembro de 2004 infelizmente vem havendo muita distorção, muito lutier que reproduz a viola, industrializando o processo, subvertendo a matéria prima.”

Mestre Alcides Ribeiro dos Santos

Sobre quem cria

Alcides Ribeiro dos Santos é Mestre da Cultura Popular do Estado de Mato Grosso. Assim considerado por dedicar sua vida e obra à produção e manutenção das práticas e saberes relativos à arte da viola-de-cocho por mais de quatro décadas. Reconhecido pela transmissão de seus conhecimentos para toda uma comunidade e por sua destreza técnica no ofício.

Caçula entre 13 irmãos, ele pertence a quarta geração de fazedores de viola-de-cocho na família. Um ofício de antepassados, que herdou do pai e do avô paterno apenas olhando, ficando ali. O pai era pantaneiro, com quem era muito apegado em todos os afazeres. “Eu parecia um velho matuto mexendo com viola de cocho no meio dos velhos cururueiros.” Sendo um dos mais novos, junto aos antigos, sentiu a resistência na transmissão do saber. “Nenhum deles queria ensinar outros, ao contrário, escondiam os modo de produzir.” Com o tempo desenvolveu o próprio molde, um corpo mais bonito, em formato violão, influenciando outros mestres que, a partir do ano 2000, passaram a seguir seu molde de corpo “violão”.

Em 1999 Alcides entrou pela primeira vez em uma universidade, ao participar de uma gravação feita pela Rede Globo na UFMS. Havia muito preconceito e discriminação com a viola e o violeiro, que não eram bem-vindos no ambiente acadêmico. E cita Habel dy Anjos como um dos maiores estudiosos do assunto. Pesquisador, escritor, professor, concertista, produtor e arranjador musical, Habel abriu portas e conseguiu incluir a viola de cocho como matéria opcional na aula de musica na UFMT. “Diziam: Esse cara é louco de entrar como uma viola de cocho numa universidade. O que é um absurdo pois ela é símbolo da nossa cultura. Mas há 30 anos atrás era assim. Porque aqui não se valorizava o que hoje se valoriza. O próprio violeiro tinha vergonha dos violeiros do Vale do Rio Cuiabá, vergonha do próprio instrumento, vergonha do instrumento que embalava a nossa cultura.” Alcides é uma referência no estado, um guardião. A vergonha de filhos e parentes de violeiros enfrentou nos últimos quinze anos uma revolução, de valorização, a qual ele foi um dos protagonistas.

Mestre Alcides Ribeiro dos Santos / Crédito das fotos: Divulgação

Sobre o território

Tombado e registrado, o modo de fazer a viola-de-cocho é uma tradição que se concentra nos arredores do Vale do Rio Cuiaba, às margens do rio, em municípios como Barão de Melgaço, Nobres, Diamantino e Rosario indo até Corumbá e Ladário. Berço de mestres como Seu Natalino, pantaneiro, da cidade de Poconé, que faleceu com quase 100 anos, Seu Vitalino, Seu Severino, Seu Agripino. Antes da divisão dos estados era uma só cultura. Hoje cada qual imprime seu traço. Próximo a divisa, em Mato Grosso do Sul nota-se a forte presença de solistas. A fala também é diferente, interferem mais. Já em Cuiabá o violeiro é mais reservado, mais “caboclo”.

Foram pegos de surpresa quando o estado do Mato Grosso do Sul patenteou a viola de cocho como um saber tradicional do estado, sendo que a maioria de seus artesãos migraram para lá ou foram formados por mestres de ofício Mato Grossenses. E assim permanece. Por volta de 2003 contabilizaram mais de 60 artesãos de viola-de-cocho no estado e mais de 50 grupos de siriri. Alcides foi um dos mestres que saiu de Cuiabá rumo a Bonito e Corumbá formar novos artesãos no estado vizinho. Infelizmente, a cada oficina, com oito a quinze participantes, apenas um leva o ofício adiante, quando muito.

Entre clientes ilustres como Dado Vila Lobos e a dupla sertaneja Edson e Hudson, as violas de Alcides ganharam o mundo e protagonizaram inúmeros projetos da ANCINE e redes de televisão.

“Teve muitas palavras boas, influencias boas nessa trajetória que fez com que eu me mantivesse nessa profissão, com esse reconhecimento que eu tenho. Se eu dependesse só do poder publico eu não conseguiria sustentar minha família. Se você não for forte e não acreditar no que você faz, você não estaria onde você está hoje.”

Mestre Alcides Ribeiro dos Santos

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