A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Arte nas Mãos – Polo Cerâmico do Alto Vale do Ribeira


Sobre as criações da Serra do Mar, Mãe de mil rios,alcanço o céu, desnudo e profundo…mergulho na mata, indomavelmente vivame perco entre suas figueiraspara ser iniciada em seu coração ancestralguarani, […]

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Rua São Sebastião, 632 , CEP 18320-000, Apiaí – SP

Sobre as criações

da Serra do Mar, Mãe de mil rios,
alcanço o céu, desnudo e profundo…
mergulho na mata, indomavelmente viva
me perco entre suas figueiras
para ser iniciada em seu coração ancestral
guarani, kaingang, terena.

Raquel Lara Rezende
Crédito da foto: Camila Pinheiro

A cerâmica produzida no Vale do Ribeira tem origem guarani, etnia indígena presente na região. O lugar permaneceu isolado socialmente e economicamente do restante do estado de São Paulo, até meados do século XX, o que fez com que o saber-fazer ancestral da cerâmica, entre outros, seguisse fortemente presente no cotidiano das pessoas. A produção da cerâmica é feita com a técnica de rolinho, rolete ou cordel. Os rolinhos, feitos a partir da manipulação do barro, são sobrepostos de acordo com o formato da peça que se deseja e depois são alisados com as mãos e ajuda de utensílios. Depois de moldadas, alisadas e secas, as peças são decoradas com a pintura feita de barro, de várias cores, e vão ao forno para queimar.

Graças às mestras da região, o modo de fazer cerâmica ancestral foi preservado, sendo passando de geração em geração. A técnica da cerâmica que antes era utilizada para a produção de panelas para o cozimento, cuias para beber água, reservatórios de alimentos e água, urnas funerárias, ganhou com o tempo outros usos, sendo produzidas outras peças utilitárias, como gamelas, moringas e vasos, além de peças de decoração. O barro utilizado na produção das peças é retirado em barreiros da região, havendo uma preocupação em recuperar os barreiros para preservar o meio ambiente.

Sobre quem cria

O desejo de que a cerâmica tradicional siga ainda por muito tempo presente no cotidiano de seus descendentes é uma das principais motivações para as ceramistas do grupo Arte nas Mãos. Formalizada em 2005, A Associação de Artesãs de Apiaí “Custodia de Jesus da Cruz” é formada por mulheres agricultoras e artesãs que sonhavam em viver do artesanato. Hoje, elas são guardiãs desse saber-fazer tradicional e o passam adiante aos mais jovens, possibilitando que esse conhecimento siga ecoando enquanto Patrimônio Cultural.

Nesse sentido, oficinas de produção comunitária foram oferecidas na região e novos equipamentos que trazem melhores condições de trabalho têm sido inseridos, sempre com o cuidado de não interferir nas principais características do artesanato. Essas mudanças incentivam novas gerações de ceramistas, incluindo homens que têm se interessado em participar de todas as etapas da produção. Hoje, são mais de 60 artesãos dos municípios de Itaoca, Barra do Chapéu e Apiaí que se unem, formando o Polo Cerâmico do Alto Vale do Ribeira.

Crédito da foto: Camila Pinheiro

Sobre o território

Ipiaí encontra-se no sul do estado de São Paulo, a cerca de 300 km da capital, e pertence à microrregião do Alto Vale do Ribeira que integra a bacia do Rio Ribeira. O Alto Ribeira é marcado pela presença da Serra do Mar e por uma paisagem montanhosa e exuberante, com a presença da Mata Atlântica. Hoje, a região do Vale do Ribeira, de modo geral, guarda cerca de 20% do que resta do ecossistema no território brasileiro, sendo, assim, a maior área contínua de Mata Atlântica preservada do país. Por sua importância, em 1999, a Reserva de Mata Atlântica do Sudeste, que abarca 17 municípios do Vale do Ribeira, foi considerada pela Unesco Patrimônio Natural da Humanidade. Nas 24 Unidades de Conservação que estão inseridas no Vale encontram-se espécies como o cedro, a juçara, canela, araucária, caxeta, entre outras. O Vale do Ribeira é historicamente uma das regiões mais pobres de São Paulo e Paraná, apresentando baixo índice de escolaridade, emprego e renda, em relação às demais regiões desses estados. As principais atividades econômicas giram em torno da cultura do arroz, café e da banana. Nas últimas décadas, o turismo tem despontado como importante geração de renda e emprego, ganhando mais investimentos do poder público. No Alto do Vale do Ribeira, uma das atrações mais procuradas é o conjunto de mais de 200 cavernas calcárias catalogadas, entre elas as cavernas do Diabo, Santana, Morro Preto, Água Suja e Casa da Pedra.

Na região se encontra o maior número de comunidades remanescentes de quilombos de todo o estado de São Paulo, além de comunidades caiçaras e guarani, o que colore ainda mais o Vale do Ribeira com a diversidade cultural ancestral. São cerca de 80 comunidades caiçaras, cujas vidas se guiam pelos ciclos da Mata e seus recursos. As comunidades indígenas encontram-se em dez aldeias Guarani formadas por famílias dos subgrupos Mbyá e Ñandeva que vivem dentro ou próximas das Unidades de Conservação. Seu modo de vida é marcado pela relação Sagrada com o local que sustenta e constrói a ética com que se relacionam com os recursos naturais. O grupo Arte nas Mãos encontra-se no bairro do Encapoeirado que possui origem quilombola. Na Casa do Artesão de Apiaí, a “Sala das Mestras” marca a homenagem da população às mestras que deixaram a herança cerâmica, tradição que tem sido passada de geração para geração.

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