A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Luiz Antonio da Silva


Mestre Luiz Antonio, do Alto do Moura (PE) é um observador perspicaz que definiu estilo próprio ao transpor para a cerâmica a temática das profissões.

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Contato Luiz Antonio
Alto do Moura, Caruaru – PE

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Sobre as criações

Seguramente um dos mais importantes pólos de arte popular do país. Onde, da matéria prima se tornou sinônimo: o barro. Que brota das margens do rio Ipojuca, abundante e generoso com os artistas da terra. Que são muitos. É a partir desse barro de qualidade especial, chamado massapê, que as obras dos grandes mestres do Alto do Moura se modelaram. E assim seguem se perpetuando. 

Contemporâneo de Vitalino, Mestre Luiz Antonio se orgulha pelos anos de convivência, fundamental para a definição de sua linha criativa e amadurecimento técnico. Observador perspicaz, definiu estilo próprio ao transpor para a cerâmica a temática das profissões. O eletricista em cima do poste, a banda de pífanos (que se tornaria referência da produção local), o fotógrafo e o cinegrafista, parteiras, a peça do parto cesáreo (registro do nascimento de um dos filhos). Também o homem do campo, o matuto, o cangaço, animais da região, mulheres negras trabalhadoras, pescadores, sertanejos retirantes da seca e manifestações de fé do povo nordestino. Obras que reproduzem, primorosamente, sua terra e seu povo. Passou também a demonstrar habilidade em representar temas urbanos, especialmente ligados ao progresso e ao uso das máquinas e equipamentos, como a maria fumaça, automóveis e motocicletas.

Foto de divulgação Artesol

Sobre quem cria

“Filhos do Alto do Moura” como gosta de se nomear, Luiz Antonio e Vitalino fazem parte da mesma geração de artistas do barro. Mestre e discípulo. Ainda crianças, faziam fogãozinho de barro, panelinha, cavalinho, pra brincar. Aprenderam observando os pais, oleiros, gerações anteriores que traziam a tradição. Luiz aprendeu cedo a severa rotina de quem sobrevive do barro – aos cinco anos dividia espaço com panelas e jarros seguindo com os pais, de madrugada, no lombo de jumento para a feira de Caruaru. Mas atribui sua iniciação profissional a Mestre Vitalino que chega em Alto do Moura em 1948, e anuncia sua arte figurativa. Aquela comunidade já tinha a antiga tradição em cerâmica utilitária. Luiz tinha apenas 13 anos. E o que era brincadeira de criança se tornou ofício.

Crédito da foto: Daniela Nader

Aos 18 anos Luiz Antonio da Silva partiu para São Paulo, onde trabalhou alguns anos. Retornou em 1958 e encontrou Vitalino com o trabalho bastante avançado. Na feira de Caruaru, vendia bem e incentivou o amigo, oferecendo espaço ao seu lado. Luiz casou-se com Odete e teve dez filhos. E a tarefa de cuidar bem de todos era árdua na época. Não vendia o suficiente para o sustento. Diante da dificuldade que se via e fortemente inspirado pela arte figurativa de Vitalino que retratava a vida no sertão, tirou proveito da criatividade e buscou figuras do seu cotidiano para as criações. Inédito, o trabalho ganhou repercussão e sucesso de vendas. 

Aos 84 anos, as mãos calejadas do mais antigo artesão em atividade de Caruaru, denunciam mais de sessenta anos devotados ao barro, e ao Brasil. Em levar sua cultura ao mundo. Foram muitas exposições, obras no país e exterior, viagens, prêmios e reconhecimento. Em 1986 representou o país no Festival de Inverno do Japão, em Nagasaki, junto a artistas de 35 países. Admirado por colecionadores e galeristas, é um dos nove mestres artesãos pernambucanos reconhecidos pelo Programa do Artesanato Brasileiro (PAB). Goza de boa saúde, segue trabalhando, fazendo exposições, participando de feiras e produzindo encomendas. Os dez filhos, 23 netos e 3 bisnetos vão se tornando, naturalmente, discípulos. O mestre deseja inaugurar, ainda em vida, um memorial. Já reuniu mais de 200 peças nos últimos vinte ou trinta anos. Sonho próximo de se realizar. Um museu contando a história que ele modelou no barro. 

Sobre o território

Alto do Moura é um bairro do município de Caruaru, um dos mais importantes do Vale do Ipojuca, agreste pernambucano. Ganhou notoriedade a partir da projeção de um de seus mais ilustres artistas, Mestre Vitalino. Um pólo criativo dinâmico e, ao mesmo tempo, voltado para o cultivo das tradições que concentra essa comunidade de artistas do artesanato do barro considerada, pela Unesco, o maior centro de arte figurativa das Américas. Estimada, em 1990, em cerca de 500 artesãos.

Antes do século XVI, a região era habitada pelos indígenas Kariris, que possuíam uma produção de cerâmica de barro rústica, sem um estilo definido. A cerâmica utilitária produzida pelos louceiros de barro da região até a metade do século XX sofre grande influência da cultura indígena, e existência de práticas introduzidas pela população de origem africana e portugueses. Mas até o final da década de 1940, a economia do Alto do Moura dependia basicamente da agricultura de subsistência familiar, com pequenas culturas de milho e mandioca. Um dos principais fatores para o aumento da produção de cerâmica de barro na região foi a Feira de Caruaru, primeiro espaço de comercialização das peças produzidas ali. Com a chegada de Vitalino, em 1948, anuncia-se uma nova perspectiva para a comunidade e a produção ceramista local.

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