A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Mestre Nena


Severino Antonio de Lima, o Mestre nena, é habilidoso com o barro vermelho, reinventa o passado e torneia peças com contemporaneidade, integridade no acabamento e uma assinatura única.

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Sobre as criações

O processo de fazer cerâmica é único. Trata com a terra, de onde se extrai o barro, com a água, usada na modelagem e com o fogo, que promove a queima e resistência da peça criada. Herdeiro das tradições da cerâmica no Cabo de Santo Agostinho, um legado do período colonial, Severino Antonio de Lima, conhecido como Nena, é mestre no ofício. Zela, junto a comunidade, e dissemina os ensinamentos iniciados na década de 1970 pelos mestres Celé e Clebe. Habilidoso com o barro vermelho, reinventa o passado e torneia peças com contemporaneidade, integridade no acabamento e uma assinatura única. Objetos que estabelecem um diálogo entre a tradição e a modernidade, inspirados na natureza e no prazer assegurado pelo próprio ofício. Inova em suas leituras estéticas ao criar vasos, pêndulos, castiçais. “Gosto de ser desafiado pela peça, acho que isso está na alma de todo artesão”. 

“Feito com as mãos, o objeto artesanal conserva, real ou metaforicamente, as impressões digitais de quem o fez”.

Octavio Paz
Crédito da foto: Portal do Artesanato de Pernambuco

Sobre quem cria

Com a morte do pai, Nena foi morar, ainda menino, com os avós no Mauriti, bairro central que nos anos 60 já concentrava olarias e produção em cerâmica. Cresceu ao lado de oleiros e grandes mestres artesãos, como Celestino José Mota Filho, o seu Celé, um dos precursores em Cabo de Santo Agostinho, fundamental na identidade da cerâmica do Mauriti, fundador e primeiro presidente da Associação do Ceramistas do município. “Morava vizinho à Olaria de Celestino e de Clebe (irmão de Celé) e fiquei encantado com todo aquele movimento”. Nena aos dez anos já trabalhava com o barro e aos 14 custeava os estudos dos irmãos mais novos.

As décadas de dedicação ao ofício modelaram um oleiro experiente que, apesar da pouca idade, chegava a produzir 300 filtros de água por semana (900 peças). Mas ele e os demais vendiam pra atravessadores que faziam pagamentos em cheques compensados após 30 dias, não tinham capital de giro e pegavam dinheiro com agiotas. Foram mais de 20 anos. “Ficava sem dinheiro pra feira no final da semana, a esposa cobrava. Foi uma época difícil. Fazia aquele trabalho repetitivo, em grande quantidade, e chegava em casa praticamente sem dinheiro. Apesar de tudo, nunca deixei de ter esperança de que um dia tudo mudaria”. E mudou. 

Foto de divulgação Artesol

Em 2003, com a cerâmica local em pleno declínio, um trabalho do Laboratório de design O Imaginário (UFPE), em parceria com o Sebrae, deu a oportunidade de ampliarem conhecimentos técnico e mercadológico e promoverem a valorização da cadeia produtiva. Houve um resgate histórico e estímulo a uma nova realidade criativa e qualitativa dando novas perspectivas para antigos e jovens artesãos. Em 2007, um passo significativo desse processo foi a inauguração do Centro de Artesanato, construído pela Prefeitura com entidades parceiras. Um espaço adequado a atividade, onde Nena trabalha de domingo a domingo. Na época, muitos ficaram inseguros em trocar o que parecia certo (apesar de desumano) por um projeto coletivo de futuro. Apenas 3 ou 4 artesãos aderiram, Nena foi um deles.

Em 2013 um novo projeto pelo Imaginarium com duração de 2 anos promoveu o registro em carteira dos artesãos e a remuneração de um salário mínimo como uma forma de oferecer alguma segurança financeira. Nesse momento, muitos incertos se integraram ao núcleo precursor. Hoje são muitas famílias envolvidas e outras tantas pessoas aguardando oportunidade de se integrarem. Falta espaço. O que demonstra o sucesso do projeto. Encerrou-se a realidade dos atravessadores, apenas um artesão ainda faz filtros mas possui os próprios canais de distribuição. 

Nena deixou para trás os filtros de água para dar vazão à sua veia criativa. Reconhecido mestre de ofício pelo Governo do Estado de Pernambuco, ele integra a Alameda dos Mestres da Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte) desde 2016 e seu trabalho é referencia em cerâmica no estado de Pernambuco. “O barro me tirou das dificuldades, alimentou meus filhos e me completa”. Sua trajetória de vida é testemunho disso. “Eu fazia filtro, trabalhava todos os dias e não parava de trabalhar. Chegava festas eu não tinha recursos pra dar nada aos meus filhos, minha família. Esse projeto mudou minha vida”.

Sobre o território

Severino Antonio de Lima nasceu em 1964, na Vila das Mercês, distrito do Cabo de Santo Agostinho, região Metropolitana do Recife. Uma jazida de barro no Porto de Suape é a origem de sua matéria-prima (e de todos os demais artesãos) há 37 anos, onde há barro amarelo, branco, mais ou menos escuro. O melhor é geralmente o mais profundo, mas cada um tem sua característica, função e aplicabilidade. O barro é comunitário: os artesãos lá escolhem, uma pessoa cava e o caminhão transporta até o Centro de Artesanato. Precisa ser beneficiado, ensaiar a melhor mistura de argila e então a barbotina (barro líquido) está pronta para ser modelada, fase de expressão do artista e sua peça. A secagem demanda cuidados à sombra para não deformar e algum acabamento. Ao entrar no forno com temperaturas entre 800 e 1200ºC o barro frágil se torna resistente e a mistura de minerais em pó sem graça ganha cor e brilho. Utilizam gás natural, minimizando o impacto ambiental causado pela queima e preocupam-se com o alerta do mestre, de que por lá o barro logo pode acabar.

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