A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Selma Gomes Duarte da Silva


Selma Gomes Duarte Silva começou a tecer com 11 anos de idade e mantém viva uma tradição que é passada de geração a geração. Em teares de liço, produz peças que retratam o modo de vida de sua região.

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Berilo – MG

Sobre as criações

“Penerei fubá, fubá caiu
eu tornei penerar, fubá subiu
aiai, meu Deus. Foi ela que me deixou
aiaiai por que não me tem amor…”

Cantiga popular cantada pelas fiandeiras de Roça Grande.

No tear mineiro com dois quadros de liço, as mulheres de Berilo tecem redes de dormir, colchas, bolsas, caminhos de mesa, almofadas, entre outros produtos. Seu processo de feitura envolve cardar, fiar, tingir e tecer os fios de algodão. Uma das características da tecelagem na região é o uso de dois tipos de algodão, o arbóreo, em tom cru, e uma espécie rara chamada “ganga” que possui tonalidade de caramelo. Para o tingimento dos fios são utilizadas plantas da região, como o angico, o jenipapo, tingui, casca da manga e amoreira que trazem coloridos únicos. Hoje, uma particularidade da tecelagem em Berilo é a confecção por sobreposição de fios para a formação de desenhos variados, como casas, pássaros, entre outros elementos presentes no cotidiano, inspirados no universo doméstico da comunidade. Os desenhos são executados em alto relevo, sem o auxílio de moldes e são o resultado da arte das tecelãs em materializar aquilo que projetam com suas imaginações. A vida da tecelagem segue acesa junto à vida de quem tece com o algodão as suas próprias lembranças, memórias, sonhos, seu presente e futuro.

Sobre quem cria

Selma Gomes Duarte Silva começou a tecer com 11 anos de idade. Aprendeu com sua mãe, que aprendeu com sua avó, que aprendeu com sua bisavó, mantendo viva uma tradição que é passada de geração a geração. Gosta especialmente de fiar o próprio algodão, trabalho que começa na colheita das plumas, e de tingir naturalmente os fios. 

Selma trabalha em casa, onde ficam seus teares. Apesar de tecer sozinha, parte do trabalho é compartilhada. Seu marido auxilia no trabalho mais pesado, especialmente no momento de arrumar os fios no tear. Para participar de eventos e produzir grandes encomendas, Selma trabalha em conjunto com outras tecelãs da região. 

Selma Gomes Duarte da Silva / Crédito das fotos: Helena Kussik

Sobre o território

Berilo encontra-se no Vale do Rio Jequitinhonha, nordeste de Minas Gerais, a 545km de Belo Horizonte, capital do estado, e é atravessado pelo rio Araçuaí. De forma geral, nas margens dos rios, que são mais planas, se encontram as matas ciliares que possuem uma vegetação mais exuberante. Nas áreas mais elevadas, que podem chegar a uma altitude de mais de mil metros, estão os campos rupestres, ou “florestas anãs” que se estabelecem no solo rochoso, formando um ambiente aberto, pouco sombreado e de imensa variedade de espécies de plantas, muitas delas de uso medicinal, como macela, mangaba, pequi, ipê roxo, urucum, cagaita, maracujá do mato e o próprio algodão.

A região do Vale do Jequitinhonha se destaca pela diversidade natural e cultural, com suas paisagens surpreendentes e suas manifestações populares, como o congado, o canto das lavadeiras, as modas de viola e o artesanato. A tecelagem e a cerâmica produzidas no Vale do Jequitinhonha, de forma geral, são muito representativos da cultura singular da região. O encontro das diferentes tradições tecelãs africanas, indígenas e europeias, com suas técnicas e modos de fazer, proporcionou que se constituísse no Brasil uma tecelagem variada e única que dialoga com as condições ambientais de cada lugar. Em Berilo, por exemplo, que antes era conhecida como “Água Suja”, havia uma tecelagem campesina em que o algodão era fiado à mão e os teares carpidos com facão.

No município hoje são reconhecidas dez comunidades quilombolas, entre elas Roça Grande e Barra do Ribeirão que compõem, junto ao povoado Engenho Velho, de remanescentes quilombolas, a Associação de Roça Grande. As comunidades costumavam plantar o algodão que utilizavam, mas hoje a associação compra quase todo o algodão que utiliza. Apenas o algodão ganga ainda é plantado por alguns produtores rurais. A agricultura, com o plantio de feijão e milho, foi por muito tempo principal fonte de renda para as comunidades, mas nas últimas duas décadas a tecelagem tem se tornado a principal atividade econômica. As dificuldades enfrentadas no roçado, com o aumento das estiagens, tem estimulado os homens a aderir ao trabalho da tecelagem, embora não participem dos mutirões nem das cantigas e jogos de versos.

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