Sobre as criações
Da madeira morta, encontrada no semiárido pernambucano surgem cobras, pebas, lagartos, gatos e tantos outros animais da fauna buiquense. Zé Bezerra conta que foi em um sonho, deitado em sua rede na parte externa de sua casa que recebeu o recado que mudaria o rumo da sua vida. Eram 3 horas da madrugada quando conversou com uma pessoa que tinha um manto na cabeça e disse que ele iria viver das matas.
“Ele disse: “A madeira morta na sua mão vai passar a vencer. Porque você tem que lembrar da carne do gato, do peba, do lagarto que você comeu… Em resumo: todos os animais que eu já tinha comido ou vendido na feira pra conseguir o que comer, eu os faria em madeira”.

Todas as esculturas são talhadas à mão, com ferramentas que ele mesmo cria para se adaptar às necessidades dos trabalhos feitos.
“Pego um cano, dobro, desdobro e monto ferramentas para trabalhar. Tenho um serrote, uma machadinha. Tudo manual, sem motor”.
Zé Bezerra não gosta de polir suas obras e essa é uma das características que diferencia seu trabalho dos outros mestres e artesãos locais. conta que quando olha um pedaço de madeira/pau ele já consegue imaginar pernas, olhos e os bichos que podem nascer dali.
“Tem vezes que a madeira chega e eu não faço quase nada, ela já vem pronta”.
Sobre quem cria
Esildo Barros, conhecido como Zé Bezerra, nasceu em Buíque/PE, mas foi no Vale do Catimbau, distrito da região que fincou raízes e construiu família, casa e ateliê. Ele conta que os pais não trabalhavam com madeira, os tempos na sua infância eram difíceis e a criação não era o foco, nem a fonte de renda da família. Zé, antes de entrar em contato com a madeira, costumava caçar na região, e assim levava alimento pra casa e também vendia na feira.

Segundo ele, foi em um dia de muito desencantamento e desgosto com a vida que recebeu o recado em sonho que precisava representar suas caças em madeira. Zé Bezerra, iniciou suas criações já adulto, por volta dos quarenta anos de idade e desde então vem se dedicando diariamente ao ofício, passando para filhos, esposa e compartilhando com todos que tenham interesse em aprender.
“Pra mim é um prazer trabalhar com madeira, sou o mestre mais antigo da região, formei mais de 40 artesãos e dei muitas dicas. As pessoas viram como a madeira mudou minha vida. A gente se ajuda”.
Zé Bezerra também é músico e criou um instrumento que ele chama de “berimbau forrozeiro”. Ele conta que depois do recado recebido em sonho ficou pensando como poderia fazer para chamar a atenção dos turistas que passavam pelo Vale do Catimbau.
“Peguei um bule na casa da minha mãe, outro bule na casa da minha irmã e com arame criei o berimbau. A partir daí comecei a cantar e tocar para chamar a atenção dos turistas”.
Zé canta, cria poesia e diz ser “um palhaço sem pintura” porque gosta muito de brincar.
Sobre o território
Zé Bezerra tem sua casa/ateliê localizada no Vale do Catimbau, distrito de Buíque, portal do sertão Pernambucano. No Vale do Catimbau encontra-se o segundo maior parque arqueológico de pinturas rupestres do Brasil, sendo o primeiro, a Serra da Capivara no Piauí. As pinturas datam de 2000 a 6000 anos, realizadas por povos caçadores e coletores que habitavam e usavam o parque e as regiões rochosas com abrigo.
O bioma é a caatinga, exclusivo do nosso país. Para os que olham superficialmente, parece demasiado seco, mas nos pés da serra encontra-se um grande aquífero que abastece toda a região e permite que fontes de água potável sejam encontradas nas proximidades.
É nesse ambiente abundante de pássaros, répteis, roedores, raposas e tantos outros animais que Zé encontra inspiração para suas criações. A madeira costuma vir de cidades próximas como Tacaratu, Tupanatinga e Ibimirim. Alguns amigos dessas cidades ajudam o mestre na busca da matéria-prima que é comprada e trazida de caminhão.
Zé sempre usa a madeira morta, nunca viva, porque foi assim que ouviu em seu sonho. Muitas vezes passeando pela região, beirando açudes ou dentro da mata, olha pra um pedaço de madeira e já enxerga a obra pronta, pede ajuda e leva a matéria-prima para casa.
Atualmente na região do Vale já existem cerca de 14 artesãos e mestres que dedicam a vida ao entalhe, José é o mais antigo e foi responsável pela formação da maioria deles.
Zé Bezerra já percorreu muitas cidades brasileiras com seu trabalho, participando de feiras, exposições e sendo convidado por galerias e centros de arte e cultura para apresentar seu trabalho. Atualmente conta com a ajuda de filhos, amigos e outros mestres, como Luís Benício, para vender, embalar e enviar seus trabalhos para clientes que compram suas obras.
Quem passa pelo ateliê de Zé Bezerra encontra um mestre no entalhe, mas também um contador de histórias e músico sempre de braços abertos. O ofício de mestre permeia a vida de Zé Bezerra de forma generosa, compartilhando saberes, vivências e alegrias.
“Quando eu me mudar, porque não vou morrer, vou me mudar, eu acho que vou continuar fazendo alguma coisa de madeira”.

Territórios criativos
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