A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Jefferson Paiva


Jefferson Paiva de Souza é membro da terceira geração de artesãos da família. Guardião das técnicas da cerâmica arqueológica tapajônica, trabalha com o resgate e a salvaguarda dessa tradição milenar.

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Sobre as criações

Artefatos que homenageiam uma cultura milenar cujos registros cerâmicos datados de c.900 a c.1600 inspiram uma recente e vigorosa produção de objetos, fruto de muita pesquisa e devoção de um de seus últimos herdeiros, o artesão e antropólogo Jefferson Paiva.

Decorados com motivos zoomorfos (figuras de animais), antropomorfos (figuras humanas) e figuras femininas, a arte da cerâmica tapajônica era composta por artefatos em formatos elaborados, produzidos para fins cerimoniais como festas e rituais religiosos. Sua beleza, repleta de detalhes, trazia feições ornamentais muito análogas ao estilo barroco e a antiga arte chinesa. Uma arte que acredita-se ter sido desenvolvida entre os indígenas que habitavam as margens do rio Tapajós, povos que seriam descendentes de hábeis artesãos, supostamente dos Maias ou Incas, estabelecidos na região a partir do ano 1200 a.C.. Uma das mais antigas e belas expressões da arte e da cultura amazônica, recentemente reconhecida como patrimônio artístico e cultural do Pará.

Toda peça que Jefferson fabrica parte de uma pesquisa. Através da arqueologia, do estudo de material cerâmico, ele passou a introduzir materiais que no inicio não utilizava. “Não existiam relatos sobre os modos de fazer. Hoje já se tem vários estudos, baseados em culturas indígenas que os preservam (como os Shipibo-Konibo, um grupo étnico da Amazônia peruana e os Wai-Wai, etnia que ocupou regiões das Guianas, Amazonas e Pará) e permitiram os atuais relatos.”

Através do artefato arqueológico chegaram a composição da pasta. “Hoje pegamos a peça no museu e fazemos a reprodução.”

O processo é um resgate dos modos de fazer ancestrais, e assim se preserva: desde a preparação da pasta, o uso do cauxi (que significa mãe da coceira em tupi-guarani), uma esponja que “dá” na beira do rio e oferece resistência à peça, até o caraipé (cinza extraída de uma árvore que é misturada ao barro para reforçá-lo no feitio de panelas que irão ao fogo – se não utilizado, a panela se quebra quando aquecida ao fogo).

Encontrado em abundância nos períodos de seca dos rios (permanecendo assim ano a ano), o cauxi é coletado, cozido em uma panela de barro até esfarelar para que apenas o pó seja misturado ao barro. Não se utiliza água. Já no feitio do caraipe, a casca do caraipezeiro é queimada, para que restem apenas as cinzas. Ela é pilada, coada e misturada à argila. No entanto, Jefferson já nota (e se preocupa) que o insumo já está rareando. “Tiramos só a casca, não derrubamos a árvore”. A argila (marrom) é adquirida nas olarias próximas a Santarém que fabricam tijolo. Chegam em estado bruto e Jefferson beneficia: bate na argila com um ferro até que fique uniforme, em seguida amassa com as mãos e passa um arame de camada em camada para retirar as impurezas. Só então ela está pronta para uso. Com a mistura feita, ocorre a produção, depois a etapa do engobe (pintura feita antes da queima a partir de variações do próprio barro) que pode se dar em três cores: vermelho, preto e branco. Depois são feitos os grafismos (sobre o engobe), ocorre a secagem e então a queima, que chega a atingir de 800 a 900 graus de temperatura no forno a lenha. Por ultimo ainda, ele faz o envelhecimento da peça. “As pessoas até confundem com a original.”

Jefferson Paiva / Crédito das fotos: Franciellly e Mayara Sá para Arqueotechno

Sobre quem cria

Jefferson Paiva de Souza é membro da terceira geração de artesãos da família. O pai aprendeu o ofício com o avô que era ceramista, assim como o avô materno. Mestre Isauro (o avô paterno) foi pioneiro da cerâmica tapajonica em 1930 no município de Santa Isabel, próximo a Belém. “Foi ele quem trouxe a cerâmica para cá”. Na década de 70 mudaram-se para Santarém onde o pai conheceu o grande artista plástico Laurimar Leal que trabalhava no museu e o incentivou na produção da cerâmica tapajonica, ensinando-o a realizar reproduções.

Desde criança Jefferson manipula o barro. Tinha cerca de quatro anos nas lembranças com o pai fazendo peças e ele ajudando com o acabamento. Começava ali a desenhá-las. “Ele queria que eu aprendesse. Fazia a peça para eu terminar.” Em 1989, aos sete anos, fez sua primeira exposição, no município de Porto Trombetas, a convite do pai. Patrocinados pelas empresas de mineração instaladas na região, anualmente os artesãos e artistas de Santarém eram convidados a participarem da mostra. O pai estava sempre presente e naquele ano o chamou para acompanhá-lo. “A partir dali me senti um ceramista de verdade. Foi o momento que decidi seguir a profissão.” Retornou com a bagagem pequena mas cheia de apoio, elogio e incentivo de todos os outros artesãos.

Filho mais velho entre os homens, Jefferson apreciava o ofício, mais do que os outros. Até os brinquedos, fazia de barro. Percebendo o gosto pela atividade, o pai sempre o incentivou. Até que, por volta dos doze anos, ele perdeu o pai. “Tudo parou”. As irmãs que estudavam, começaram a trabalhar. Sozinho, restou apenas ele produzindo na família. Ainda assim, deu continuidade. Seguiu atendendo os clientes do pai, que passaram a ser seus. E se manteve no barro até os 16 anos. Sem nenhum apoio, nem familiar, nem do município, decidiu se alistar no Exército, onde ficou por sete anos. Passado esse tempo abriu uma olaria e passou a produzir tijolos de cerâmica, durante quase dez anos.

Ao longo de todo esse tempo nunca abandonou a arte tapajônica. A escolha por não se envolver nem se comprometer demais mantinha a produção tímida. Até que em 2017, uma época de muita dificuldade, teve um sonho com o avô, Mestre Isauro, que lhe disse: “Você está nessa porque você quer, você sabe o caminho que você deve seguir”. Inseguro sobre como fazer para sustentar a família, recebeu como resposta um sorriso e uma caminhada de despedida. Logo depois Jefferson abandonou tudo. Vendeu os maquinários da empresa, acertou o pagamento dos funcionários e passou a se dedicar exclusivamente a cerâmica.

De 2018 para cá trabalha integralmente voltado a essa arte primitiva. Se arrepende por ter interrompido por tanto tempo sua jornada. Logo recebeu um convite para dar uma oficina na comunidade de Monte Alegre, emitiu sua carteira nacional de artesão e participou da primeira exposição fora do estado. Participa de todos os editais para expor seu trabalhos em feiras e eventos. No mesmo ano, deu-se o que considera um marco em sua vida: ingressou no curso de arqueologia da Universidade Federal do Oeste do Pará, um sonho desde criança. “Papai sempre trabalhou com a reprodução da cerâmica tapajônica e às vezes ele contava histórias e eu sempre pensava qual seriam as histórias por trás daquelas peças. Passei a ter um conhecimento científico do trabalho”.

Começou a participar de congressos de arqueologia em todo o Brasil, seu trabalho foi ficando ainda mais reconhecido e passou a receber convites para participações em eventos no exterior. Foi convidado em 2019 para um Leilão Internacional em Hong Kong e em seguida uma feira na Tunísia. Ainda sem contar com nenhum tipo de apoio conseguiu viabilizar as despesas para sua ida através de uma “vaquinha virtual” nas redes sociais e doações, mas faltando apenas uma semana para o embarque, veio a pandemia.

“Estou realizando um sonho, não imaginava nem sair de Santarém. Sou um privilegiado. Mantenho a minha família hoje só com o artesanato.”

Jefferson Paiva / Crédito das fotos: Franciellly e Mayara Sá para Arqueotechno

Motivado, Jefferson está resgatando o ofício na família, envolvendo enteados, irmãos, para juntos refazerem a tradição ancestral mantida até hoje. Preocupado com a difusão e continuidade desse valioso fazer ancestral, ele ensina voluntariamente um grupo de ceramistas
que se reúnem e trabalham juntos uma vez ao mês. Quando chega uma grande encomenda, dividem entre si. Jefferson doa o barro como forma de incentivo, ajuda na produção e também na comercialização e divulgação em suas redes sociais. Corre atrás de oportunidades em feiras e busca espaços de comercialização. Recentemente conseguiu um local de exposição e venda no Centro de Artesanato de Santarém, no Museu de Santarém, que compartilha com os artesãos, além de levar as peças produzidas por eles em suas viagens. “Tem muito desemprego aqui e é uma forma de renda. Tem barro aqui, bora fazer. Se eu morrer, como vai ficar a cerâmica aqui, quem vai dar continuidade? Sinto uma grande responsabilidade de estar a frente disso, de estar dando continuidade ao que começou há tanto tempo.”

Sobre o território

No inicio do século XVI, antes da chegada dos europeus ao continente americano, a região da bacia Amazônica era bastante povoada. As populações eram organizadas em sociedades bem distintas, havia um universo riquíssimo de diferentes línguas, que permitiu muita troca de informações no território através dos caminhos criados por rios e terra. Haviam sociedades com amplos conhecimentos de agricultura e criação de animais que conviviam com pequenos grupos nômades. Por volta do ano 1.000 a.C., algumas sociedades amazônicas deram origem a territórios comandados por uma única liderança, ou cacique, que tinham uma produção de cerâmica muito elaborada, servindo tanto aos rituais como para uso cotidiano, além de serem usados como objetos de troca. À beira do Rio Tapajós, região da atual cidade de Santarém, se estabeleceu um dos maiores centros de produção de cerâmica das Américas.

Jefferson trabalha ao som dos pássaros, em uma área aberta embaixo de alguns pés de mangueiras. Em plena floresta Amazônica, ele segue com a missão quase solitária de garantir a salvaguarda de uma arte ancestral que conta com o descaso do poder público mas com o reconhecimento de um público assegurado pelo turismo, enquanto não consegue viabilizar atender outros mercados.”Muita gente fica pelo caminho porque não tem esse apoio. Nossa cultura é tão rica e tão bela que o mundo precisa conhecer. Muitas vezes, no Brasil mesmo, aqui dentro, não se conhece.”

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