A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Mestre Maria Lucia Firmino dos Santos


Maria Lúcia borda há quase 60 anos. Fez-se mestre do ofício, construiu uma associação de bordadeiras em Passira, ensina a todos que batem à sua porta. Com a luta e o bordado não pretende parar.

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Sobre as criações

Ponto a ponto, os tecidos se embelezam com o lento e primoroso bordado manual. Batizados com nomes populares como ponto cheio, matiz, atrás, corrente, crivo, matame, e outros, são tecidos de forma livre. Bordado livre. Uma alquimia de panos, linhas e cores que se constrói a partir de um processo guiado pelo objetivo da peça, pela escolha do tecido e das linhas e pelas formas e pontos a serem bordados. Assim as bordadeiras entregam ao mundo toda sorte de produtos adornados com técnica e tradição: toalhas, lençóis, roupas e tudo o mais que se possa fazer dentro do universo têxtil.

A primeira etapa do bordado é riscar o desenho no tecido, frequentemente organizado pela simetria das formas e elementos e transferido do papel craft ou vegetal para a superfície têxtil. Em seguida é o momento de cobrir o risco com o bordado, preenchendo o desenho com o uso de agulhas e linhas de todas as cores. O acabamento é concluído contornando a peça e evitando que o tecido desfie. Os tecidos mais usados são compostos de algodão na trama, ideais para a feitura da bainha aberta e do crivo, técnicas em que os fios são desfiados, removidos e reagrupados.

Acredita-se que, assim como a renda, o bordado livre foi trazido por mulheres que imigraram para o Brasil e aqui foram rapidamente assimilados. Desconfiam que sua origem seja em Portugal, mas é evidente a conquista da nova identidade na miscigenação da herança colonial.

Foto de divulgação Artesol

Sobre quem cria

Filha de pai agricultor e mãe bordadeira, Maria Lucia Firmino dos Santos começou a bordar com a mãe, ainda criança, entre os oito ou nove anos. “Aprendi com minha mãe que bordava divinamente, bordadeira de mão cheia.” Junto dela, sentava-se e arriscava os primeiros pontos. Um ofício de muitas histórias e memórias.

“Já estou com 65. Bastante tempo né? A gente bordava para outras pessoas e elas pagavam bem pouquinho. Bem pouquinho mesmo, desvalorizavam muito. A gente bordava muito, muito mesmo, ficava com minha mãe até tarde da noite na luz de lamparina porque a gente precisava desse valor. Muitas noites. Começava bem cedo e ia dormir mais de 22h.”

Lucia foi crescendo, se aprimorando e atendendo encomendas ao lado da mãe. Sempre teve muito desejo por estudar, ser professora, mas só havia primeiro grau na cidade vizinha e não tinham condições sequer de arcar com os custos do transporte. Era o bordado que lhe alimentava a fé e a realidade que um dia se daria. “Eu sempre fui muito insistente. Morava em Passira e o colégio era na cidade vizinha, Limoeiro. Antes era uma estrada de terra. Olhe, eu bordava tanto, de dia, de noite, feriado, o dia inteiro. Eu pensava que eu ia estudar, conseguir dinheiro para o transporte, para o material. Dizia: vou enfrentar todo o ano sem comprar uma sandália de dedo. Muitas vezes eu ficava bordando, e quando acordava percebia que havia dormido deitada em cima no bordado.”

Pois na fé e devoção Lucia realizou seus estudos e concluiu o magistério em 1997. “Não participei de nada, de colação de grau, mas fiquei feliz porque eu tinha terminado. Minha felicidade era ter conseguido me tornar professora.” Logo que se formou ela foi convidada a lecionar na zona rural e mesmo morando na cidade e o trabalho sendo no campo, Lucia aceitou feliz. Parou de atender encomendas mas o bordado seguiu de mãos dadas. Com o dinheiro das peças que vendia, ajudava a mãe. “Minha mãe tinha muitos meninos. Irmã eu só tinha quatro, o resto era tudo homem. Uma família humilde. Até para estudar era muito difícil, aproveitavam o caderno do outro irmão que já tinha usado.”

Lúcia lecionou por 33 anos, borda há quase 60. “Meu bordado e a luta eu nunca deixei”. Desde menina, sempre assistiu ao abuso e a desvalorização do trabalho das bordadeiras. “A gente fazia um bordado bonito, e a pessoa falava: eu não gostei, eu ia pagar tanto, mas eu vou pagar isso. Isso me entristecia. Eu pensava: Eu só vou descansar o dia que eu ver as bordadeiras deixarem de bordar para essas pessoas.” Foram muitas as histórias de excessos, arbitrariedades e má fé que alimentaram o impulso por mudança.

Lucia fez questão de ensinar o oficio às duas filhas pela preservação da cultura do bordado. Juntas foram em busca de novos mercados e ano a ano as vendas cresciam. Ela começou a formar grupos e ensinar cada dia mais pessoas:

“Nunca chegou uma pessoa em minha porta, me pediu para ensinar tal ponto e eu neguei. Eu perguntava o dia, marcava e ensinava. O importante é repassar o que a gente sabe. Isso me deixa muito satisfeita, mas muito mesmo, sabe o que é muito?”

Em 2007 Lucia Firmino liderou a formação da Associação das Mulheres Artesãs de Passira e seguem juntas até hoje. “Eu sonhava em formar um grupo, ensinar, e eu só vou deixar de ensinar quando eu não puder mais. Vejo minhas filhas orgulhosas, quando elas dizem: minha mãe é uma mestra, elas chegam a falar de boca cheia e isso me deixa muito feliz.”

Sobre o território

Enraizada no agreste pernambucano, Passira é popularmente conhecida como a Terra do Bordado Manual. Um lugar que acolheu e perpetua esse saber-fazer há gerações, antes mesmo de sua emancipação em 1963, quando ainda pertencia ao município de Limoeiro. Já na década de 80, com maior apoio e visibilidade, as bordadeiras consolidaram a atividade como símbolo da identidade local.

Na pequena cidade cujo nome de origem indígena significa “terra do acordar suave”, Dona Lucia Firmino ainda hoje levanta às 5h30 da manha e começa a bordar por volta das 7h, ocupação que segue até as 18h. De segunda a sábado, exceto domingo. A devoção e empenho de grandes mestras como ela, levou o bordado de Passira a conquistar outros territórios, primeiro mais próximos como Recife depois mais distantes como alguns dos principais centros urbanos do país incluindo São Paulo e Rio de Janeiro.

Suas criações já estiveram presentes em grandes feiras nacionais a exemplo da Fenearte e importantes eventos de moda, a partir de coleções criadas em parceria com renomados estilistas como Ronaldo Fraga, designers e pesquisadores como Ana Julia Melo que realizou seu mestrado em 2014 investigando o encontro entre o design e artesanato a partir da experiência das bordadeiras de Passira com a moda nacional.

Acompanhada pela filha Marcília, seu braço direito, aos 64 anos Dona Lucia Firmino segue vigorosa bordando, ensinando e coordenando encomendas de 200, 300, 500 peças junto às bordadeiras. “As pessoas falam se eu não vou me aposentar. Mas eu vou me aposentar pra que? Vocês nem sabem, eu fico inventando ponto novo pra mim. Quando eu vejo aquelas pessoas aprendendo eu fico tão feliz, me enche de alegria”.

Foto de divulgação Artesol

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