A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Mestre Douglas Lopes


Natural do município de Apicum-Açu (MA), mestre Douglas, como é conhecido, ganhou reconhecimento pela atuação com a representação da cultura popular maranhense e indumentárias de festas juninas feitos com miçangas e canutilhos. Além dos bordados, Douglas segue o legado do pai confeccionando embarcações.

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Sobre as criações

O Bumba meu boi do Maranhão é uma importante festa tradicional em que a figura do boi é o elemento central. Mas o folguedo popular extrapola o aspecto lúdico da brincadeira. Profundamente enraizada no cristianismo e no catolicismo popular, envolve a devoção aos santos juninos e reúne diversas manifestações culturais, se configurando em um vasto “complexo cultural” incluindo os cultos religiosos afro-brasileiros em uma celebração de sincretismo entre santos, orixás, voduns e encantados.

Foi inscrito em 2011 no Livro de Registro de Celebrações e recebeu da Unesco, em 2019, o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Com riqueza nas tramas e personagens, congrega diversos bens culturais: performances dramáticas, musicais, coreográficas, confecção de instrumentos musicais artesanais e, entre outros, o artesanato, como os bordados do boi, cuja vasta produção abarca desde pequenas réplicas para souvenirs até a tradicional escultura de festejo de 140 cm. Os corpos são manualmente esculpidos, um a um, a partir dos talos das folha do buriti, uma palmeira majestosa, cuja origem do nome é tupi-guarani e significa “árvore da vida”, assim reverenciada por várias etnias indígenas. Uma planta da qual tudo se aproveita, garantindo a vida nos sertões. Esculpidos, os animais são recobertos por veludo e acarinhados por elaboradas aplicações bordadas a mão que configuram a identidade desse símbolo maranhense.

Mestre Douglas Lopes / Crédito das fotos: Divulgação

Sobre quem cria

Douglas Jesus Castro Lopes é filho de Seu Domingos, pescador a frente do seu tempo que colocou toda a família em um barco à vela e partiu de Apicum Açu para São Luís em busca de uma vida melhor. Chegaram sem nada. O pai evoluiu na atividade, passou a fazer pesca em alto mar, teve muitos barcos, compraram uma boa casa mas a perda de um dos filhos trouxe junto a depressão. Perderam tudo e ele passou a trabalhar como vigia. Nessa época, despertou para o artesanato, um legado ancestral.

A chegada da família Lopes ao Maranhão coincide com a própria história do Brasil. Sua avó era indígena, deixando para Douglas seus olhos puxados. O tataravô de Douglas foi um dos portugueses a chegar ao estado, no período da colonização. Procuravam na época por regiões de rios, com o objetivo de estabelecerem os engenhos. A família se fixou em Bacuri, à noroeste da Ilha de São Luís e lá também se desmembrou. Seu avô era pescador, e carnavalesco. Douglas o conheceu ainda pequeno, mas lembra-se dele fazendo fantasias. Só não se lembra do avô no feitio do boi. “Mas o pai conta que ele fazia sim, pra brincar. Pai não foi criado com ele, mas a arte foi junto com o sangue dele.” Já adolescente, Seu Domingos foi morar com o pai e pode participar da produção carnavalesca.

Pequeno, Douglas se lembra de caminhar pelas ruas, o pai lhe comprava um pequeno tambor, a mãe costurava fantasias. Eram em 11 irmãos. “No Interiorzinho sempre foi uma tradição.” Douglas tinha 8 anos quando o pai resgatou o ofício. Era um exímio fazedor de bois e barcos. “Ele tinha uma quitandinha durante o dia, onde fazia as embarcações de buriti e a noite trabalhava de vigia em um supermercado. O bairro de São Francisco é uma prainha, à beira mar. Ele colocava as embarcações nas prateleiras e ia vendendo.” Os filhos ajudavam a produzir. Desde bem criança Douglas trabalhou com o pai. Aos 14 anos foi ajudante de mecânico, piscineiro, mas sempre ajudando na quitanda. Mas foi aos 16 anos que percebeu potencial naquela atividade. Decidiu reunir um volume de barcos, fez uma amarração na bicicleta, atravessou o rio e levou até o centro histórico dizendo ao pai que iria vender. Achava que seria fácil, mas não foi. O pai, todos os dias, levava ânimo, incentivo e refeição a ele. Mas Douglas só recebia elogios, nenhuma venda.

Até que um dia uma pessoa o encaminhou ao CEPRAMA – Centro de Comercialização de Produtos Artesanais do Maranhão, um parâmetro de qualidade para os artesãos maranhenses. Era o ano de 1992. Lá fez seu cadastro como artesão e passou a comercializar sua produção com o apoio do governo, não mais de forma independente onde segue até hoje. Focou a produção nas pequenas réplicas dos bois. A demanda era tanta que ele interrompeu os estudos no último semestre do ensino médio, nunca mais retornou.

Foram muitas madrugadas trabalhando para manter seu espaço abastecido. O pai se adaptou ao ritmo, passou a ficar no corte do boi (esculpindo o corpo dos boizinhos) e Douglas na decoração. Substituíram materiais – eliminaram a cola de sapateiro, altamente tóxica e que adoeceu muitos artesãos, e passaram a usar cola de isopor, passaram a usar tinta a base de água, eliminaram todos os alfinetes que causavam inúmeros acidentes entre as crianças, entre outras melhorias que tornaram seu produto único. Por fim, com cursos e formações, percebeu que podia popularizar os preços. Foi difícil para outros artesãos acompanhar seu crescimento no mercado. Mudaram de vida. Compraram móveis que não tinham, eletrodomésticos, conseguiram reformar a casa, montar um atelier equipado.

“Era uma época em que o Brasil estava se redescobrindo. E o mundo estava descobrindo o Brasil.” Tiveram ajudantes, ensinaram colegas, amigos, vizinhos que se interessavam e iam ficando. Jovens de 13, 14 anos.

Em 1999, Douglas se casou e se mudou. Casado, com três filhas pequenas, morando em uma casa de taipa, em um assentamento sem acesso a água, tampouco um atelier de trabalho, passou por tempos difíceis. Foram dez anos para retomar o ritmo de trabalho. Chegaram as primeiras encomendas da Secretaria de Turismo e Douglas passou a transmitir seu conhecimento a mais pessoas em dificuldade, em busca de uma renda digna: jovens, senhoras de idade. Chegava a envolver 20 colaboradores, ou mais. Certa vez foram cerca de 50 aprendizes.

Douglas é hoje reconhecido mestre-artesão pelo PAB – Programa do Artesanato Brasileiro e foi condecorado em 2019 com o Primeiro Premio do Turismo do Maranhão na categoria artesanato, por meio do Projeto MIEMART – Miniaturas de Embarcações, Bumbas e Arte. A esposa Marielsa trabalha junto a ele, produzindo os bois pequenos para souvenir e as filhas Vitória, Clara e Isadora também o ajudam.

Sobre o território

Natural do município de Apicum-Açu, mestre Douglas, como é conhecido, ganhou reconhecimento pela atuação com a representação da cultura popular maranhense e indumentárias de festas juninas feitos com miçangas e canutilhos. Além dos bordados, Douglas segue o legado do pai confeccionando embarcações. Hoje a principal matéria prima não vem mais de Alcântara, mas de Barreirinha, onde Douglas troca com um cliente lojista por parte de sua produção. Ele fornece o buriti de seu sítio, onde o mestre orienta sobre a coleta a fim de evitar o corte das folhas verdes da palmeira e reunir apenas aquelas que caem naturalmente, prática infelizmente pouco comum.

“O buriti já está escasso. A maioria dos buritis secos que caem estão bons para uso. Às vezes a qualidade é um pouco inferior mas não compromete a produção já que as peças são pintadas ou revestidas. Ele aproveita e limpa o sitio.”

As festividades do Bumba meu Boi ocorrem em todo o estado do Maranhão e concentram-se durante os festejos juninos. É vivenciado pelos brincantes ao longo de todo o ano. Considerado a mais importante manifestação da cultura popular do Estado é uma grande celebração cultural onde se articulam várias formas de expressão e saberes e se confundem fé, festa e arte, em uma mistura de devoção, crenças, mitos, alegria, cores, dança, música, teatro e artesanato.

A arte de bordar, técnica adquirida através dos ensinamentos do pai, através do avô, quando o mestre Douglas ainda era menino, atualmente é ensinada por ele aos moradores da comunidade do bairro Pirâmide, no município de Raposa.

“Eu tenho muitos planos mesmo, a minha vida é isso aqui. Me aprofundando, tentando ficar mais sabedor de tudo em relação a nossa própria historia, em relação ao bumba meu boi, em relação à historia das embarcações típicas, ao artesanato no Maranhão, em São Luiz”

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