A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Mestre Miro dos Bonecos – Ermírio José da Silva


A produção do Mestre Miro abriga ventríloquos, engenhosas casas de farinha, bandas de pífanos mas os mamulengos sustentados em três cordas são os mais procurados. Não passa um dia sem criar: “Meus bonecos fazem parte da minha família. É como se fosse um ciclo: eu dou vida a eles e eles e eles a mim”.

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Carpina – PE

Sobre as criações

As mãos “molengas”, como diz o matuto, dão origem ao mamulengo, um tipo de fantoche, apresentado em forma de luvas. Um teatro de bonecos que cantam, dançam, conversam com a platéia e distribuem pauladas por todos os lados. Espetáculos feitos por gente simples, sem recursos monetários, em condições técnicas precárias, mas com inigualável criatividade e uma comunicabilidade imbatível. Um teatro verdadeiramente popular.

A produção do Mestre Miro abriga ventríloquos, engenhosas casas de farinha, bandas de pífanos e outras peças articuladas mas os mamulengos sustentados em três cordas são os mais procurados. Não passa um dia sem criar: “Meus bonecos fazem parte da minha família. É como se fosse um ciclo: eu dou vida a eles e eles e eles a mim”. O artista se utiliza da madeira de mulungu, leve e macia, “mas só se ela cair na terra”. Não retira, nem corta árvores. Reúne pedaços de madeira dos roçados de mata queimada, e paga ao dono por eles. 

Crédito da foto: Peu Ricardo

Sobre quem cria

Perto dos 7 anos assistiu a uma apresentação na praça de Carpina do saudoso Mestre Sólon (1921-1987) reunindo adultos e crianças a gargalhar, dançando com sua boneca e com seu ventrículo. “Ele cavou 4 buracos no chão, montou uma lona e botou os bonecos pra brincar. Achei lindo, queria um boneco daquele”. E decidiu que faria. O pai dizia que ele não conseguiria mas o menino não desanimou e ao chegar em casa no Sítio Santa Terezinha, arranjou um cabo de vassoura e deu forma ao seu primeiro boneco. Os pedaços de borracha se transmutaram em pernas e braços e a roupa do brincante foi adaptada com a meia do irmão. Se apaixonou pelos bonecos e passou a fazer todo dia. Trocava-os por brinquedos com os amigos. Foi aprendendo sozinho o ofício, de tanto fazer, até que dominasse a técnica mamulengueira que décadas mais tarde o consagraria Miro dos Bonecos. 

Crédito da foto: Peu Ricardo

Menino criado no roçado, Ermírio José da Silva tinha o pai agricultor. Morava no sitio, com os pais e os 12 irmãos. O pai trabalhava em troca da terra e certo dia uma boa safra de abacaxi permitiu a compra de uma nova morada, no centro de Carpina. Miro chegou a cidade por volta dos 17 anos, já confecciona seus bonecos com a maleável madeira de mulungu. Foi se aperfeiçoando e vendeu seu primeiro boneco. Fez bonecos maiores. Animou ainda mais e não parou. Recebeu a influência de diversos mamulengueiros: Mestre Solón, Mestre João Galego, Mestre Saúba mas mantém sua inspiração na natureza: no vento, nas nuvens, no sol, na lua.

“O mato se balança e já dá um gesto pra gente entender que aquele balançar você pode usar em um boneco, em uma dança”. 

Em 1997, dá-se uma de suas principais criações: Maria Grande, com quase 1,70 de altura, cabeça e boca articuladas, até hoje companheira nas apresentações. “Eu ía no forró, queria dançar com a mulher e não conseguia. Ela só me dando corte”. Já tinha visto algumas bonecas, mas todas “coisa parada”. Tinha feito, e desistido mas certo dia insistiu. Fez uma articulada. Todos se impressionaram. “Lembro que foi uma alegria danada quando o povo me viu dançando com ela em um show de forró”. Miro ganhou fama, por onde anda conhecem a boneca. Um ano depois (1998), cria o Mamulengo Novo Milênio, grupo de teatro popular em atividade até hoje e que conta com mais de trinta bonecos-personagens. 

Miro participa da Fenearte, considerada a maior feira de artesanato da América Latina desde a primeira edição. Em 2005, seu trabalho, A Santa Ceia, que reproduzia com bonecos a última refeição de Jesus com os apóstolos, ganhou o primeiro lugar no Salão de Arte Popular Ana Holanda. O valor da premiação permitiu que ele comprasse a casa onde vive até hoje com a família – o que nunca realizaria ganhando R$ 150,00 por mês. Foi reconhecido Mestre pelo governo do estado e voltou a ter a uma peça (Pé de Mamulengo) em destaque no Salão na 15ª edição da Fenearte. Já levou seus bonecos e a rica tradição dos mamulengos pernambucanos para todo o Brasil e Europa. 

Nascido em 1964, Mestre Miro tem uma história marcada por dificuldades, superações e reconhecimento. Nesse tempo todo, foi zelador, vendedor de côco, de laranja, desmontou fossa. Ficou 17 anos em uma firma: de dia trabalhava, à noite fazia bonecos. “Nunca desisti de fazer. Já trabalhei de várias coisas e vi que a gente pode fazer muito mais do que um salário mínimo”. A feitura dos bonecos em madeira, chita, arame, cola, tinta e massa corrida já envolve a terceira geração da família: os 2 filhos, o genro, a esposa no acabamento e nas roupas, junto com a filha, que também faz a pintura e batiza os bonecos. A produção semanal de cerca de cem deles, vendida predominantemente a lojistas, é o sustento das 3 famílias. 

Sobre o território

Miro é nascido em Carpina, zona da mata norte de Pernambuco, onde nas décadas de 50 e 60 as pessoas divertiam-se diante dos bonecos por trás do pano esticado, nas feiras, festas de rua, terreiros das casas grandes de engenho e residências humildes onde vizinhos se juntavam. Frequentemente na zona rural, onde as apresentações de mamulengueiros hoje são raras. Miro mantém o sonho de uma casa de cultura, com espaço para folclore, arte do mamulengo, do cavalo marinho, maracatu, ciranda, côco, carimbó.

Junto com Mestre Zé Lopes, Wagner Porto, Bibiu e os “meninos” da Associação Cultural de Mamulengueiros e Artesãos de Glória do Goitá, é um dos responsáveis pela manutenção e preservação dessa cultura cênica, autenticamente teatral e popular. Uma arte que sabe transfigurar os costumes populares da região no fantástico mundo da tenda, protagonizado por bonecos irreverentes que levam plateias ao delírio, com moralismo e ingenuidade.

“Eu não tenho leitura, os bonecos são pra mim a fonte da minha vida. A gente só comia quando o roçado desse. Quando o roçado não dava, a gente não comia. Então os bonecos são uma família morta ajudando uma família viva a sobreviver. Tudo o que preciso agora é um baú para carregar essa gente toda”.

Crédito da foto: Peu Ricardo

Fotos de divulgação Artesol

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