Juão de Fibra 

João Gomes é o nome de batismo do Juão de Fibra, artesão famoso por seu trabalho com o capim colonião. Desde criança, trançava com as fibras naturais que encontrava em sua casa, no interior do Ceará. Anos depois, mudou-se para Brasília, onde conheceu a artesã Dona Antônia Lopes de Oliveira, precursora do trabalho com as fibras do cerrado, e começou a trabalhar com as fibras do bioma, especialmente o capim colonião.

Firmou-se na cidade de Novo Gama, na divisa do Distrito Federal com Goiás, e tem o título de Mestre Artesão de Referência Cultural de Goiás. Seu trabalho já rodou o Brasil e o mundo, em mostras de design, feiras, publicações de livros didáticos e exposições.

Além disso, compartilha seus conhecimentos em diversos cursos e oficinas, utilizando a diversidade das fibras naturais para ensinar e inspirar novos artesãos e artesãs.

Nesta entrevista, Juão de Fibra fala um pouco sobre sua trajetória e desejos para o artesanato brasileiro.

Foto de divulgação Artesol

O que o artesanato representa na sua vida e na história da sua comunidade

Representa a própria vida para mim, porque eu não sei se eu sobreviveria sem o artesanato, sem fazer artesanato. Não a palavra artesanato, mas o fazer, o tocar, o vivenciar, o olhar, sabe? É como se fosse um alimento diário na minha vida. Porque se você chegar na minha casa, todos os dias eu estou fazendo artesanato.

A cidade de Novo Gama [minha comunidade] hoje é representada no mundo inteiro na questão da cultura. A gente tem muitos tipos de culturas emprestadas aqui, mas a real é o artesanato do mestre João de Fibra, do Capim Colonião. E isso faz com que a cidade inteira se beneficie.

Eu venho tentando resgatar o artesanato, não só na questão das fibras mas também a de outras técnicas e outras matérias primas.

Às vezes eu olho para um artesão e vejo, às vezes, que o que importa pra ele é só a questão financeira, mas no meu caso não é a questão financeira, para mim é a questão humana, é de ver as pessoas crescerem e mudar suas vidas através da arte, do artesanato, sabe?

E aí, para mim, não importa qual tipo de artesanato que vai ter, não é eu que quero ser a estrela da minha cidade no artesanato, mas eu quero que outras tipologias nasçam aqui.

Como você enxerga o papel de um mestre, de uma liderança do artesanato no fortalecimento do território?

Aqui o conhecimento e as técnicas são transmitidas através de outras matérias-primas, por isso eu criei o espaço para plantar matérias-primas que viessem a suprir a necessidade do capim colonião.

No ano passado, pelo Sebrae, eu tive a oportunidade de ministrar quatro cursos na cidade. Todos voltados para a fibra. Se eu não tiver a fibra do capim colonião, eu vou trabalhar a fibra do Papira, a fibra da Dracena… vou trabalhar fibras que eu tenho condições naquele momento.

O papel do mestre é ensinar e não ligar se vai ter concorrentes, porque no meu caso eu não me incomodo e eu acho que por eu não me incomodar as pessoas não me copiam. É como se ele [mestre] fosse um representante de toda a categoria de artesãos.

Foto de divulgação Artesol

Qual é a importância dos artesãos se organizarem em redes, associações e coletivos?

Eu sempre luto para que os artesãos se organizem para que a gente possa sair do casulo. Quando você capacita 30, se você conseguir um com êxito, já valeu toda a luta. Aqui na cidade, eu tenho duas pessoas. Tem uma pessoa que iniciou lá atrás comigo, que é a Tânia, que é uma discípula, fruto de um trabalho que eu comecei lá atrás, há muitos anos atrás, e que hoje capacita pessoas e viaja o país todo. E tem uma outra que está no mesmo caminho.

Esse é o sonho que eu tenho pra todo artesão da cidade de Novo Gama. É possível? Não sei, mas eu não desisto.

E que futuro você deseja pro artesanato brasileiro e pras novas gerações?

Quando comecei no artesanato, eu era um mísero artesão. Eu queria um dia sobreviver de artesanato, e graças a Deus eu consegui, mas foi uma luta muito grande.

E o que eu espero para o artesanato brasileiro? Que assim como mudou para mim, eu queria ver isso no país. Se alguém perguntar qual é a sua profissão, não ter vergonha de dizer que ‘eu sou artesão’. Eu queria que o artesão fosse visto na sociedade da mesma forma que as outras pessoas que têm empregos formais.

Eu acho que está se caminhando para isso, com essa lei do artesanato que saiu agora. Acho que com essas instituições, como a Artesol e outras tantas que tem por aí, e alguns ativistas que vêm lutando pela causa, vai chegar.

Foto de divulgação Artesol

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