Rosani Schiller (Nika) 

Rosani Schiller, carinhosamente conhecida como Nika, atua como gestora e presidente da Associação de Artesãs Redeiras do Extremo Sul, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. O trabalho gerido por Nika transformou resíduos da pesca local — como redes descartadas, escamas e couro de peixe — em acessórios de alto valor agregado e premiações nacionais, a exemplo da bolsa Lagoa dos Patos. Ex-consultora do SEBRAE que migrou para a linha de frente da gestão coletiva, Nika tornou-se uma referência em inovação sustentável, articulação comunitária e expansão de mercados para o artesanato do Sul do país.

Nesta entrevista, Nika fala sobre o início dessa articulação, seu papel na Associação e como ela percebe o amadurecimento do artesanato nacional.

Você vem de família de pescadores? Como surgiu seu interesse pelo artesanato feito com redes de pesca usadas?

Não venho de família de pescadores. É que na época, em 2007, eu era consultora externa do SEBRAE, fazia articulação de grupo. E fui designada para montar o grupo das Redeiras. Eu visitava as mulheres semanalmente até que consegui formar o grupo em 2009, com 10 mulheres. Trabalhei com elas tudo o que o SEBRAE dá de gestão e organização, para que o grupo começasse forte, sabe? Isso foi o que deu a base para o Redeiras ser o que é hoje.

Em 2009, por exemplo, elas trabalharam o ano inteirinho sem vender uma peça. Elas tinham a matéria-prima e o SEBRAE deu o resto: a consultoria, que no caso era eu da articulação e a Karine, que fazia o design para desenvolver os produtos. Muitas vezes eu e a Karine, a gente comprava as coisas que precisavam do nosso bolso, porque as mulheres não tinham um centavo sequer. Elas trabalharam o ano de 2009 inteiro para chegar na coleção que chegaram, sem vender as peças, só ouvindo e conversando com a gente. Foi necessário passar por todo esse processo para que o grupo fosse forte depois. Elas entenderam isso e investiram todo esse tempo.

Em fevereiro de 2010, a coleção foi lançada na Paralela Gift, em São Paulo, e a artesã Karine foi escolhida pelo grupo para representar o grupo em São Paulo. Lembro que nesse dia ela se agarrou em mim e disse: “Nika, eu não sei vender, tenho vergonha dos preços dos nossos produtos, não sei o que eu vou fazer lá”. Eu disse: “não tem problema, eu vou contigo”. E viajei por minha conta para São Paulo para ajudar elas.

Chegando lá, combinei com a Karine o seguinte: “tu fica na frente porque o produto é teu, tu conhece a matéria-prima e sabe como é que se faz. Então, tu vai explicar, vai atender. E eu vou ficar sentada na mesa, fazendo atendimento ao cliente, com o lojista no caso, e receber o pagamento, porque ela tinha medo de lidar com dinheiro”. Foi uma tensão esse primeiro encontro.

Quando a coisa começou a andar, foi um sucesso. No primeiro dia já bombou, vendeu muito, não consegui nem me levantar da mesa, tanto eram os pedidos dos lojistas. Então, foi todo um trabalho que fizemos juntas… A minha ligação com elas, desde o início, foi muito forte. Muito, muito forte. E aí deslanchou.

Hoje o artesanato realmente me mantém muito viva, a mil, eu nem me sinto com 69 anos de idade. E para as outras mulheres do Redeiras também, mudou muito a vida delas, em todos os sentidos.

Essas mulheres que você articulou já eram artesãs?

Algumas, nem todas. Tinham duas amigas que já usavam a reciclagem, mas totalmente diferente do que fazemos com a rede. Mas já usavam a escama. A rede mesmo, só a Ângela que usava, ela não está mais no grupo hoje, bordava algumas coisas. E começaram misturando outros fios, sabe? Esse trabalho de articulação também foi de introdução das técnicas. Porque o que nós vemos nas Redeiras, que já está com quase 20 anos, é uma técnica muito consolidada.

O crochê, o tear, não é nada novo. O nosso ponto alto é o processo da reciclagem da rede para chegar na matéria-prima e depois ir para o tear. Esse processo de transformar uma rede imunda, toda esburacada e remendada, naquela bola de fio, limpa, sem emenda, e virar peça, esse é nosso diferencial. E aí fica aquele efeito maravilhoso nas bolsas porque ele fica todo espetadinho, que dá uma textura totalmente diferente.

Então quem deu todo o suporte para o grupo foi a artesã Ângela. A Karine veio com o design. A primeira oficina foi em agosto de 2009. Eu levei a Karine na casa da Ângela, que era quem mais produzia. Quando a Karine chegou, olhou e perguntou se podia transformar a rede que tinha sido cortada em fio. Porque é um trabalho de paciência transformar e cortar aquilo tudo… E a Ângela disse sim. Então, a Karine combinou que na oficina ia usar a rede cortada. E botou todas as mulheres do grupo para lavar a rede e cortar em fio. Para quando chegasse o dia da oficina, já estar com esse material pronto. A Karine que teve a ideia do tear manual com esse fio.

Você participou do festival “Criativos por Tradição”, que fizemos no Rio de Janeiro, em 2019. Foi quando conhecemos o grupo Redeiras. Foi dali também que veio a ideia de te convidar para fazer aquele curso do CAAIS… nós vimos sua oficina de precificação com as artesãs, elas ficaram super interessadas.

Vendo toda essa sua trajetória, a partir desse seu trabalho de gestão e articulação, como você enxerga o papel de mestres e mestras no artesanato e o potencial de cada artesã para a formação do grupo?

Olha, nós do Redeiras – e eu me incluo integralmente no grupo, já não sou mais apenas a articuladora – nós fazemos essa transmissão de conhecimento, de buscar novas pessoas para ensinar as nossas técnicas. E trabalho muito na questão do acabamento. O arremate é minha área, sou muito detalhista e minuciosa e faço esse controle de qualidade. Recentemente também fizemos uma oficina para ensinar a lavar e recortar a rede. Então estamos sempre incentivando as mulheres a terem uma renda extra na entressafra do peixe. Quando elas não têm camarão para limpar, podem nos ajudar. Porque nós dependemos desse trabalho para atender a demanda. Hoje temos cerca de 25 mulheres fazendo esse serviço e estamos sempre buscando mais gente, tanto para ensinar a lavar e cortar a rede, quanto para fazer os acabamentos, o crochê simples e o tear.

Eu também faço o papel de cutucar as mulheres às vezes. Elas me chamam de “chicotinho” porque quando estão muito devagar, vou lá dar uma “chicotadinha”. É uma maneira de dizer que dou uma motivada para elas voltarem a produzir com vontade. Porque cada uma tem seus problemas familiares. Esse é o problema dessas unidades pequenas, o círculo em volta delas é muito familiar e quando acontece qualquer coisa afeta grande parte das mulheres ao mesmo tempo. Se acontece alguma coisa no meio do caminho e uma pessoa interrompe seu afazer, todo o processo para. Então meu papel principal é resolver problemas desse tipo, organizar a produção de maneira que possamos atender a demanda e entregar dentro do prazo que foi prometido.

Para você, qual é a importância dos artesãos e artesãs se organizarem em redes, associações e coletivos?

Nossa… ter a associação e um CNPJ é fundamental porque é através disso que conseguimos conquistar projetos, nos inscrever em edital, essas coisas. E somos um grupo onde a amizade e a confiança são muito significativas. Se não existir isso, não funciona. Agora estamos querendo entrar na área de exportação e vamos ter que mexer na associação para poder emitir nota. Porque se emitimos nota fiscal pela associação temos que pagar vários impostos que interferem no preço do produto…

E sabemos que ninguém vai para frente sozinho. Participar da Rede Artesol, por exemplo, nos abriu muitas portas, e isso já faz tempo, foi lá em 2014. Muitos clientes vieram até nós através da rede. Então integrar outras redes é fundamental para atingir locais que não teríamos acesso se estivéssemos sozinhas. É fundamental buscar apoio em outros grupos e organizações. Isso alavanca o crescimento do grupo e mostra o que fazemos para mais pessoas. O Sebrae também abriu muitas portas. Tem muita troca de experiências.

E hoje, com a união do artesão e o design, mudou muito a cara do artesanato nacional. Nas feiras vemos tanta coisa bonita atualmente, cada um dentro do seu jeito, com a sua técnica, sua matéria-prima. E a tendência é crescer cada vez mais, porque existe uma valorização muito maior do feito à mão. Hoje o cliente está pagando mais para ter algo criado por alguém, com uma história, que remete a uma cultura.

Como você enxerga o interesse das novas gerações pelo artesanato?

No nosso grupo já tem filhos e outros parentes mais jovens trabalhando, mas ainda considero pouco. Ainda não vejo alguém que assuma o meu papel, por exemplo. Tenho essa disponibilidade de tempo, não tenho problema de viajar, tenho essa liberdade, mas isso não é uma coisa fácil de achar hoje. Porque todo mundo tem os seus vínculos familiares, seus compromissos. As artesãs fazem o trabalho porque dá para ser feito em casa. Elas têm responsabilidade, entregam tudo, mas não querem assumir a gestão do grupo, não têm essa disponibilidade para se deslocar constantemente. Esse é o grande desafio. Vai além da produção.

O que significa para você fazer parte da Rede Artesol e atuar como embaixadora?

Olha, lembro que quando recebi a mensagem no WhatsApp ri sozinha, fiquei feliz da vida, aquilo me deu uma injeção de ânimo. Porque a gente é tão esquecida aqui no Sul, sabe? E por todo esse trabalho que a gente vem fazendo há anos e vocês reconhecerem. Então eu fiquei muito, muito, muito feliz. Honrada e lisonjeada com todo esse reconhecimento. E claro, além de me deixar pra cima, vieram as dúvidas: “qual é o papel que vou ter que desempenhar? Será que terei condições? Vou conseguir alcançar esses objetivos?”

O Ministério da Pesca e o Ministério do Meio Ambiente, por exemplo, estão tentando fazer uma normatização de retorno de todos os apetrechos de pesca, para motivar o pescador artesanal – e o pescador profissional também – a retornarem com as redes, anzóis, cordas e tudo mais.

Foram dois dias de discussões sobre esse assunto, que envolveu o Ministério da Pesca, o Ministério do Meio Ambiente, Ibama, ICMBio, entre outros. E eles levaram três grupos que fazem reciclagem com os objetos da pesca para contar sua experiência. E nós estávamos lá no meio! Então, a gente se sente importante, né? Logo mais, vamos participar de feira em Fortaleza, vamos expor em Paris… E agora nosso maior problema é a rede. Nós não temos material suficiente. Eu já fiz o contato e formalizei o pedido junto ao Ibama e ICMBio, ambos me prometeram rede. Estou só esperando eles darem ok para ir de caminhonete buscar. A gente está sem rede para reciclar. Estamos produzindo só com o que já tem lá cortado…


Embaixadores

Sed fringilla mauris sit amet nibh. Donec sodales sagittis magna. Sed consequat, leo eget bibendum sodales, augue velit cursus nunc,