Cleide Toledo é uma mestra artesã de São Paulo com destaque nacional, reconhecida pelo seu trabalho autoral e sustentável com o trançado da taboa utilizando técnicas de origem guarani. Com mais de quarenta anos de dedicação ao setor, ela construiu uma trajetória sólida como liderança política e defensora da valorização cultural do artesão. Ela fundou a União dos Artesãos Profissionais do Estado de São Paulo (UAPESP) e hoje é presidenta da Federação dos Artesãos Profissionais do Estado de São Paulo (FEAPESP).
Sua atuação também abrange importantes parcerias com o extinto programa “Sr. Brasil” (apresentado por Rolando Boldrin na TV Cultura), projetos de curadoria cultural, e o projeto Artesanato Sustentável, consolidando seu papel na defesa e fomento às redes de apoio para artesãos no estado de São Paulo e no Brasil.
Nesta entrevista, Cleide fala sobre o reconhecimento de mestra artesã, a importância da base conceitual e sua atuação política desde a fundação da UAPESP até a presidência da Federação Paulista.
Você é uma mestra reconhecida pelo PAB com uma importante atuação política no artesanato paulista. Conta um pouco sobre sua trajetória de mestra e liderança política.
Ser mestra é ter esse reconhecimento da minha trajetória de trabalho. Tenho uma carteira de mestre há uns 15 anos. Mas não é só uma carteira. Tem gente que tem carteira e não é mestre. E tem alguns que são e não têm carteira. Então é assim: daqui a pouco vou fazer 70 anos e se ninguém cuidar da história da gente, e olha que tem pessoas até mais velhas do que eu… Se não houver esse cuidado, a nossa história vai embora. O meu trabalho vai morrer, infelizmente. Sem esse cuidado, não tem como fazer um repasse do conhecimento que é realmente profissional. Para que outros possam continuar fazendo esse trabalho. Porque ninguém forma um artesão num curso. É preciso algum tempo para formar um artesão.
E não é só formar. O mestre, a mestra, eles têm uma característica que não é só a formação técnica. É toda sua trajetória de vida, o que você ensina através da técnica. Então a técnica é um ponto de partida, digamos assim, para quem está aprendendo, mas é o ensinamento de vida relacionado àquilo que conta. Eu sei bem o que é criar filho embaixo de banca, tomar chuva na feira, nas costas, carregar ferro de barraca, passar fome nas feiras, porque às vezes você não pode comprar comida na feira, porque falta em casa, ainda mais eu que criei os meninos sozinha. Às vezes eu olho para trás e falo: “gente, eu fiz tudo isso mesmo?”. Tem coisa que a gente nem acredita que fez, sabe?
Então, é uma trajetória de trabalho. De luta, de abrir o caminho para os outros. Eu sou dessas que sempre fui de abrir para os outros. Antes de associação, de federação, antes de qualquer coisa, sempre procurei convidar, levar, trazer. Depois o Rolando abriu para mim uma porta gigantesca, eu pude levar tanta gente para lá, muita gente, nós temos um acervo de 1.500 peças, e aí foi abrindo…
E hoje eu não tenho uma peça pronta. Faço coisas só por encomenda hoje, porque meu tempo é limitado. Dou aula, faço curadoria, palestra, roda de conversa, é um papel político importante.


Você entrou para a rede Artesol em 2019, desde então nós temos acompanhado o seu trabalho e sabemos como é importante para o fortalecimento do artesanato no Brasil. Como você se sente sendo embaixadora da Artesol?
É uma honra! Eu sei que teve um caminho de muita luta até aqui e agora nós estamos colhendo, mas ainda assim, é muito gratificante tudo isso. E acho que é uma tremenda responsabilidade. Eu gosto sempre de abrir o caminho para novos artesãos. Eu trabalho para eles, costumo falar: “se não estiver bom para eles, não vai ser bom para mim”. Então é uma honra e também é mais uma maneira de abrir portas, trazer mais artesãos, levar conhecimento. É gratificante ser reconhecida por esse trabalho.
O que o artesanato representa para você, para sua vida e sua comunidade? A gente sabe que São Paulo é uma cidade enorme, mas pensando comunidade como o conjunto dos artesãos.
Para mim, o artesanato representa amor e superação. Eu amo o meu trabalho, não quero nunca deixar de fazê-lo. Então, para mim, é isso, o meu trabalho. Para o meu grupo, tanto para os artesãos federados como para os não federados também, o artesanato é o que me motiva a trabalhar cada vez mais por uma São Paulo que seja mais acolhedora com o artesão. Nós não temos eventos em São Paulo para os nossos artesãos, por exemplo. Antes tinha lá no Parque da Água Branca, na Saúde, tinha loja que vendia artesanato do Estado inteiro, hoje não temos mais isso.
Hoje estamos tentando, via federação, montar uma loja para vender todo o artesanato do estado, porque nós não temos nada que atenda São Paulo. Mesmo sendo um estado rico, por onde passa turista o ano inteiro, não tem um espaço para vender artesanato do nosso estado. Não tem. E outra coisa, a informação não chega. Eu tenho 47 anos no artesanato, conheço muita gente que não sabe que existe uma base conceitual sobre o que é artesanato, não sabe que existe uma carteira nacional, não sabe calcular o preço do seu trabalho, não tem espaço para expor fora do seu município, participar de outros eventos. Tudo isso me deixa muito triste. E infelizmente, nós não temos patrocínio, nenhum apoio para poder fazer isso, trabalhar com a base, levar essa informação, montar os eventos… E tem muito trabalho bom em São Paulo, muita gente boa, mas as informações não chegam, eles não têm acesso.
E como que você vê o papel de uma mestra, de um mestre, de uma liderança do artesanato nesse fortalecimento?
Eu acho que tem que passar todo esse conhecimento adiante, porque a trajetória que a gente viveu, ela tem uma história forte, de superação, de trabalho. Eu sempre falo: “ninguém vira mestra só para dizer ‘eu sou uma mestra’”. Se você chegou, é porque fez a sua trajetória, você trabalhou. Conheço muita gente boa, muito trabalho bom, de gente que não é mestre, porque não transmite o seu saber. Você tem que transmitir tudo o que você sabe, porque, de repente, para quem você está passando, vai superar você, inclusive. E isso é maravilhoso. Então, a gente tem que abraçar o artesão, pessoas novas que estão chegando e ir avisando, explicando, levando informação, que precisa guardar os documentos, porque às vezes as pessoas não estão muito aí, participam de eventos e não guardam nada, sai matéria e não guarda, tudo isso vai comprovando a trajetória. E precisa ir transmitindo o saber, porque o que se sabe não pode ficar na gaveta guardado, senão não tem sentido nenhum.
Como você percebe o debate em torno da questão da base conceitual? Sabemos que isso é muito discutido, muitos estados, inclusive, não concordam com a definição do artesanato pela base conceitual, que separa o artesanato das manualidades, por exemplo.
Nossa, eu sou a pessoa que mais defende a base conceitual, tem que continuar firme do jeito que está. Isso não significa que eu seja contra a manualidade, não é nada disso. Mas o artesão não é manualista. O artesão trabalha muito duro dentro da sua oficina. Não é fácil ser artesão, porque tem peça que demora cinco dias para fazer, e tem peça que demora 20, 30 dias. E o manualista é diferente. Ele compra metade pronto, faz esse trabalho manualista e põe para vender, porque ele não tem a habilidade de fazer todo o processo, não tem tempo para isso. Então o lugar dele não é o mesmo lugar de artesão. É preciso valorizar o artesão!
A Feira da Praça da República, aqui em São Paulo, por exemplo, era considerada a mãe de todas as feiras. Lembro que quando começou os trabalhos eram magníficos, fantásticos. As pessoas iam lá só para ver aqueles artesãos, todas as técnicas estavam ali. Se você for à Praça da República hoje, só tem trabalho manualista. Os artesãos foram todos embora. Porque não tem como competir. O valor do trabalho do artesão é muito maior e quem não tem muito conhecimento sobre isso, prefere aquela montagem que sai por um preço mais barato. No Trianon, a mesma coisa. A única feira que permanece em São Paulo, e não é só de artesanato, é a da Benedito Calixto.

Eu já falei isso lá no PAB e volto a falar em qualquer lugar: “o dia que entrar manualista, eu rasgo minha carteira de artesã, não preciso mais dela”. Essa é uma briga constante. A base conceitual é fundamental para nós, artesãos. Tivemos uma briga, por exemplo, porque muita gente queria incluir o feltro na base. Mas não dá para pôr, porque o dia que entrar, a revenda vai entrar, dá para comprar de baciada o feltro. Então, acho que não podemos misturar as estações.
É realmente uma luta… Sabe o que é muito importante hoje? Hoje, nós, presidentes das federações e a diretoria Conarte, nós estamos muito presentes dentro do PAB. Participamos das reuniões com coordenadores, isso gera debate, e facilita para o artesão, ajuda muito, porque para ser presidente de uma federação, precisa ser artesão. E quando você está lá como presidente, você está brigando pelo coletivo, são vários presidentes brigando pelos artesãos do seu estado. Tudo isso vira um conjunto forte.
O que você espera para o futuro do artesanato brasileiro?
Ver o artesão unido! Quando eu fundei a UAPESP, o significado do U é de união do artesão. Independente de qual estado o artesão é, precisamos de união, porque é isso que vai fazer com que possamos conquistar mais coisas. Só conseguimos alcançar e mudar alguma coisa por meio da união, pensando num todo. Mas ainda tem muito artesão individualista. Desse jeito, não vamos a lugar nenhum. São as redes que contribuem para o nosso crescimento. A Rede Artesol, as federações, a confederação, o PAB… Essas organizações fazem a gente crescer. Mas é preciso que as pessoas participem também. É esse trabalho em conjunto que vai melhorar a vida do artesão. O individualismo não leva a lugar nenhum.
