Embaixador Mestra Maria José (Zeza) Souza

Mestra Zeza, Maria José Souza, nasceu em Divina Pastora, Sergipe, e aprendeu a fazer renda irlandesa aos dez anos, com a tia Carmem, que produzia enxovais para famílias de Aracaju e dominava diversas técnicas de bordado e renda. Depois de viver alguns anos na capital para estudar e trabalhar, Maria José retornou à cidade natal e, há mais de duas décadas, integra a Associação de Desenvolvimento da Renda Irlandesa de Divina Pastora (ASDEREN). Foi na associação que aprofundou sua relação com o ofício, passando da prática artesanal à atuação na organização, formação e fortalecimento das rendeiras. 

Em Divina Pastora, a Renda Irlandesa assumiu uma dimensão coletiva e identitária tão forte que o modo de fazer local foi reconhecido, em 2009, como Patrimônio Cultural do Brasil. 

Maria José é hoje uma das principais articuladoras da ASDEREN, atuando sobretudo na gestão, no desenvolvimento de projetos, na organização das encomendas e na qualificação das rendeiras. Seu trabalho parte da compreensão de que preservar a renda também significa cuidar das pessoas que a produzem. Na associação, ajudou a consolidar processos de formação e controle de qualidade, além de estabelecer diferentes níveis de remuneração de acordo com a experiência das artesãs. A organização também adota princípios de comércio justo, valorizando a qualidade do trabalho e estabelecendo uma relação transparente com os clientes. A ASDEREN reúne cerca de 60 mulheres e possui sede própria, construída como espaço de produção, convivência e fortalecimento da atividade. 

Confira abaixo mais sobre sua história, visão e sonhos para o artesanato brasileiro. 

O que o artesanato representa na tua vida e na história da tua comunidade?  

Bom, o artesanato representa na minha vida um modo de viver, um modo de você estar viva, na verdade. Porque ele entrou com a minha família, minha mãe é rendeira, minhas tias são rendeiras. 

Comecei muito nova, né? Eu praticamente nasci na renda. E foi a renda que me tirou de várias situações. Então para mim é uma vida, está na minha vida, está no meu DNA. 

A renda irlandesa me tirou de uma depressão pós-parto. Acho que isso foi um ponto-chave de eu estar no artesanato até hoje. Ele conseguiu me tirar de uma situação muito triste da minha vida, então pra mim é só gratidão, superação. 

Estar no artesanato pra mim é viver. Literalmente é viver.  

Eu percebi e sei que a renda irlandesa é uma jóia que precisa ser lapidada. E isso pode mudar a vida da minha comunidade, isso pode mudar a vida de várias mulheres financeiramente, espiritualmente e emocionalmente. Então se eu trabalhar com isso, se eu me dedicar a isso, eu não vou mudar só a minha vida, como eu já mudei. 

Eu também vou mudar vidas de outras mulheres, que são rendeiras, que são mulheres, que enfrentam um monte de problemas. E eu tenho certeza que a renda mudou, muda e vai mudar a vida delas economicamente e emocionalmente 

O modo de viver das rendeiras aqui é um DNA mesmo da nossa comunidade.  

Já estou há 26 anos na associação, é uma vida. Então eu sei dos altos e baixos, do caminho que a gente pode percorrer e o caminho que a gente já percorreu no sentido de superação mesmo. De superação, de sair de crises financeiras, de sair de crises existenciais, de sair de crises de associação. 

Além de criar peças e trabalhar com a renda, você também transmite o conhecimento e com essa transmissão você mobiliza as pessoas. Como você enxerga o papel de uma mestra, de uma liderança do artesanato no fortalecimento do território. 

Você proporcionar à sua comunidade o senso de pertencimento. 

Quando você proporciona o sentido de pertencimento da sua tradição, da sua raiz, você consegue transmitir naturalmente. Eu transmito a renda irlandesa naturalmente, para mim é uma coisa bem natural. É uma coisa que a gente dá de graça, mas não é de graça em dinheiro. 

A gente dá de graça no sentido de aportar esta graça e saber fazer a renda, entendeu? A gente ensina a criança de 9 anos, adultos de 50, 60 anos, jovens de 20, 25 anos. Abrimos turmas aqui na associação e também ensinamos nas escolas do município.  

A gente dá de graça, mas não é a graça do dinheiro, a gente dá essa graça do saber fazer, do saber fazer a renda. Essa a graça. 

E eu passo também para as outras mulheres, para os homens que querem aprender, a gente passa também tranquilamente. A gente passa esse saber fazer e pensando no futuro. Como Dona Sinhá, ela não está mais com a gente, mas ela está viva no que ela dizia, no que ela trazia há 50 anos. 

É um legado que eu quero deixar. Eu acho que o mestre tem que fazer isso, passar o seu saber, transmitir a sua energia naquilo que ele sabe fazer de melhor. ,

O artesanato é um trabalho que fortalece quando as pessoas caminham juntas. Na sua experiência, qual é a importância dos artesãos, das artesãs, se organizarem em redes, associações e coletivos?  

Tem um leque de importância. Eu gosto de frisar uma coisa: quando a gente se junta e caminha na mesma direção, a gente consegue avançar. Esse avanço é em conhecimento, em direitos, em capacitação. 

Você vai sempre inovando. Aquela tradição não fica naquela bolha. Aquela tradição, quando você é capacitado, aquela tradição se torna um leque de opções, um leque de conhecimentos. 

Coisas que a gente não imaginava dez anos atrás, cinco anos atrás, se tornam possíveis.  

A gente também consegue novos mercados. Força para falar com os políticos, para obter voz nessa parte que é tão importante e que os artesãos, na maioria, são tão desvalorizados porque não têm conhecimento. Conhecimento liberta. 

Junto, a gente tem sempre a oportunidade de comprar mais, estar em feiras que tenham um público maior, estar em espaços que a gente não poderia estar só.  

Tem uma parte interessante também, dessa união na prática também, que é a divisão das atividades e das tarefas. Na associação, por exemplo, que vocês dividem a produção, já que a renda é uma produção colaborativa. 

Isso, aqui na associação, pelo tempo de experiência, foi o que eu percebi. Tem rendeiras que só gostam de rendar. Então, não adianta… Ela não vai conseguir trabalhar com outras atividades. 

Para rendar, você precisa comprar insumos, você precisa da parte administrativa, você precisa da parte financeira, da parte de contabilidade. A gente tem ordem, e cada rendeira ou cada associação, cada associada tem a sua função. Nós temos uma presidente, eu estou como vice, temos uma tesoureira, temos uma contadora e temos uma advogada para toda essa parte de lei, de como a gente pode entrar em determinadas coisas, o que a gente pode fazer, o que a gente não pode fazer. 

A gente está com uma mudança nas leis fiscais, a contadora já quer uma reunião com a gente para explicar o que vai fazer, o que não vai fazer. Então, isso é conhecimento. Outra, a gente está com pessoas que amam a renda, mas que não sabem fazer a renda, mas sabem fazer um portfólio, sabem entrar em alguns editais. 

A gente precisa ter essas pessoas e as próprias rendeiras, quando se interessam, elas também conseguem fazer. Então, a gente vai dividindo cada função para cada pessoa que realmente, de fato, tem aquela habilidade naquela função. Isso a gente já conseguiu fazer, graças a Deus. 

E o que você deseja para o futuro do artesanato brasileiro e para as novas gerações de artesãos e artesãs?  

Vamos sonhar agora, né?  

Eu acho que, no geral, o artesanato brasileiro é muito rico. E as instituições, os poderes públicos, precisam se atentar a isso. No sentido que não é só a peça, não é só o produto. 

Por trás desse artesanato, existe uma pessoa que precisa ser valorizada. Quanto mais você valoriza o artesão como pessoa e como artista, mais o Brasil tem a ganhar, no sentido geral. 

Valorizar não é só você comprar a peça, é dar condições de vida para o artesão, dar capacidade, capacitações, conhecimento, e garantir salvaguarda também no sentido financeiro, principalmente para os artesãos que se destacam pelo que fazem de melhor. E as instituições, no sentido político mesmo, autoridades, acho que eles não estão vendo isso, eles estão com o olho em outra direção. Isso é necessário falar, é necessário valorizar o que a gente tem. 

Fazer escolas também, saber trançar a palha é saber a nossa história. Já pensou uma escola que ensine história, história de pertencimento, história da sua tradição.   

Acho que isso o Brasil precisa. No Brasil todo nós temos artesanatos maravilhosos, você vai para o Rio Grande do Sul, você tem uma tradição belíssima, você vai para o Rio Grande do Norte, você tem uma tradição belíssima, você vai para a Amazônia, é encantador, você vai para o Nordeste, é maravilhoso. 

É maravilhoso. Tudo que a gente faz de artesanato é maravilhoso. Não existe outro país igual a gente, não. 

E as autoridades precisam olhar isso, e não é como se fosse dar esmola, é valorizar mesmo. Se você valorizar, nosso Brasil vai dar um salto maravilhoso. Vai gerar economia, senso de pertencimento, vai melhorar a vida das pessoas, no geral.