Embaixador Mestre Jefferson Paiva 

Jefferson Paiva de Souza é ceramista, arqueólogo e um dos principais nomes dedicados à salvaguarda e à continuidade da cerâmica tapajônica. Nascido em Santarém, no Pará, pertence à terceira geração de uma família de ceramistas e teve no pai e no avô, Mestre Isauro, seus primeiros mestres. Desde criança convive com o barro e, aos sete anos, participou de sua primeira exposição. A cerâmica, que atravessou diferentes momentos de sua trajetória, tornou-se novamente seu ofício principal em 2017, quando decidiu abandonar a produção de tijolos para se dedicar integralmente à arte ancestral de sua família. 

Seu trabalho parte da pesquisa e da observação dos artefatos arqueológicos encontrados na região do Tapajós. Jefferson recria formas e grafismos inspirados na antiga cerâmica tapajônica, marcada por figuras humanas, animais e elementos femininos, buscando compreender e recuperar também os modos de fazer associados a essas peças. A preparação da massa envolve materiais tradicionais como o cauxi, uma esponja encontrada às margens dos rios, e o caraipé, cinza obtida da casca de uma árvore que confere resistência à cerâmica. Argila, engobe, grafismos e queima em forno a lenha completam um processo minucioso em que pesquisa científica e conhecimento artesanal se encontram. 

Sua formação em Arqueologia, concluída em 2024 pela Universidade Federal do Oeste do Pará, aprofundou uma curiosidade que o acompanha desde a infância. Atualmente, mestre e pesquisador, Jefferson articula o saber herdado da família ao conhecimento acadêmico, participando de congressos, exposições e iniciativas de valorização do patrimônio arqueológico e cultural brasileiro. Seu trabalho já alcançou outros países e públicos, levando a cerâmica tapajônica para além das fronteiras da Amazônia. 

Ao mesmo tempo em que pesquisa e produz, Jefferson assumiu a responsabilidade de garantir que esse conhecimento continue circulando em seu território. Ensina outros ceramistas, compartilha matéria-prima, ajuda na comercialização e busca oportunidades para ampliar o acesso dos artesãos a feiras e espaços de venda. Também vem envolvendo familiares mais jovens no ofício, em um esforço para que a tradição permaneça viva e possa constituir uma alternativa de trabalho e geração de renda para a comunidade. 

Entre o barro, a arqueologia e a memória familiar, Jefferson trabalha para que a cerâmica tapajônica não permaneça apenas nos museus e sítios arqueológicos, mas continue sendo produzida, conhecida e reconhecida como parte viva do patrimônio da Amazônia e do Brasil. 

Confira abaixo mais sobre sua história, visão e sonhos para o artesanato brasileiro. 

O que o artesanato representa na tua vida e na história da tua comunidade?  

Na verdade, o artesanato é a minha vida. Eu venho de família de ceramistas, tendo meus avós, o paterno e o materno e meu pai como os meus mestres. Então, eu cresci nesse ambiente de troca, de conhecer a nossa ancestralidade. Por isso, para mim, o artesanato é a essência da nossa ancestralidade. Que vem percorrendo sua terceira geração. O interessante é que eles não eram aqui da região. Desceram da região de Belém, que fica aqui a mais de 1.500 quilômetros daqui, de Santarém. 

E quando eles chegaram aqui, meus pais e meus avós, quando eles chegaram em Santarém, estava havendo uma exploração arqueológica aqui. O pessoal vinha de todos os cantos para comercializar, comprar, vender peça arqueológica aqui na região. Desde o século XVII a produção dessa cerâmica tinha sido proibida aqui.  

Falavam que era coisa do diabo, aquela questão toda da igreja. Então, nossa família foi responsável pelo resgate dessa cultura que estava adormecida. E para mim, hoje, a arte é minha vida. Vivo disso e tenho maior felicidade de estar transmitindo esse saber para as pessoas.  

Tua família já trabalhava com cerâmica em Belém?  

Já faziam uma cerâmica utilitária. O vovô aprendeu por volta da década de 30, somente peças utilitárias. 

Alguidar, tubulação de esgoto, panelas. E quando eles tiveram contato aqui com a cerâmica tapajônica, foi que despertou neles essa produção, só a partir da década de 70.  

Eles faziam, por observação, através de fotos. Papai era muito curioso, começou a estudar aqui a cerâmica. Ele conheceu com alguns colecionadores e buscava fazer réplica dessas peças para vender aos turistas. 

Não é nada simples fazer réplica das peças. É uma coisa que é difícil. Quando a gente tem uma criação, não tem nada para se basear, e quando é réplica, o buraco é mais embaixo. Porque tem toda uma escala, tem toda uma medida, tem toda essa parte de textura. Tentar reproduzir o que já foi criado é algo mais difícil. 

Principalmente por causa do barro. Porque cada tipo de barro tem a retração dele. Tem barro que retrai 10%, tem barro que retrai 15%. E tem que conhecer a matéria-prima para saber que tanto ela vai retrair. 

O papai já conhecia o acervo do Emílio Goeldi e sempre falava para mim. Só que o acervo era fechado, poucas pessoas tinham acesso. 

Então ele vinha e falava: olha Jefferson, um dia eu vou te levar para conhecer o Goeldi. E infelizmente isso não aconteceu em vida, mas hoje eu vejo que ele mexeu os pauzinhos lá de cima. E por conta disso, eu faço pesquisa nessa instituição, no Museu Paraense Emílio Goeldi. Onde a gente busca aprender da cultura tapajônica e tentar reproduzir essas técnicas ancestrais desde 2017 com o projeto “Replicando o Passado”.  

Para mim é um sonho estar vivendo isso, fazendo pesquisa. Porque quando a gente é artesão, a gente tem um olhar. E quando a gente é pesquisador, aí tem um outro olhar.  

Eu vejo isso como um chamado de vida. Eu passei um tempo longe da cerâmica, fiquei um pouco desgostoso aqui com as políticas públicas, que não tinham apoio… e um tempo que a gente viveu explorado pelos lojistas daqui. Era um período de humilhação, o tempo do papai, do vovô. Então eu fui servir exército. 

Depois eu abri uma olaria de tijolo, com o intuito de produzir, de trabalhar do barro. Mas sempre com o desejo de voltar a mexer com artesanato, a origem. Até que num momento difícil da minha vida eu sonhei com o meu avô. 

Ele falou assim: olha, Jefferson, tu tá nessa porque tu quer. Porque você sabe o caminho que deve seguir. Então foi o momento que eu larguei tudo e me debrucei na cerâmica. Foi um momento que tudo melhorou na minha vida. Consegui passar para fazer arqueologia na UFOPA, que é bastante concorrido. Hoje eu tenho um grande respeito na comunidade acadêmica, entre os artesãos. 

Então eu fico muito feliz por esse chamado, do vovô ter vindo nos sonhos e ter me chamado.  

E a tua trajetória só é o que é porque você escutou e seguiu. E eu sei que isso inspira muita gente que te conhece, que conhece a tua história.  

Sim, realmente. Hoje tem muitos ceramistas que chegam, que já têm o seu modo de vida, sua produção independente. E sempre falam: olha, Jefferson, tudo que eu sei, eu agradeço a ti, às iniciativas que tu tens feito, porque a cerâmica também está fazendo parte da minha vida. 

Então para mim, quando eu vejo as pessoas assim, é muito gratificante. Pessoas que trabalhavam comigo, que aprenderam, que hoje estão ganhando editais concorridos.  

É muito comum aqui, entre os artesãos, esconderem o que sabem com medo de concorrência. Eu penso ao inverso. Se tivesse 100 ceramistas aqui, eu acho que a gente teria mais visibilidade. 

Além de criar as peças, você também transmite a técnica. Você ensina as pessoas, mobiliza a comunidade. Como que você enxerga o papel de um mestre, de uma liderança no fortalecimento do território?  

Bem, para mim, um mestre é um guardião de um saber, um saber de uma vida toda. E para mim, ele também é uma pessoa que espalha a semente.  

Já até me perguntaram, inclusive na minha banca de defesa, por que teve uns ceramistas que eu chamei de mestre e outros que eu chamei somente de ceramistas. 

Eu falei assim: olha, porque essa pessoa, ela não ensina. Eu acho que mestre é a pessoa que ensina, que tem a disponibilidade, a boa vontade de ensinar. 

E é uma semente que é jogada, que as pessoas aprendem. Só que às vezes as pessoas guardam para si e não querem espalhar. Então, o dever, o principal papel do mestre, do líder, é justamente esse de divulgar, espalhando essa semente de várias formas. 

Seja no modo de fazer e na parte imaterial, que é o conhecimento. Eu falo que guardião não é só a pessoa que faz, mas a pessoa que transmite esse saber. Pode ser numa palestra, pode ser numa fala. 

Mostrando exemplos da própria vida. Escutando vários mestres e pessoas que têm um papel muito fundamental nesse repasse, a gente entende que não é só o repasse da técnica que você está falando. É um exemplo também para a própria comunidade de como esse modo de vida relacionado ao artesanato pode transformar, ele pode ser bom, pode trazer ganhos para a vida das pessoas. O mestre também tem esse papel de guia. E o artesanato é um trabalho que se fortalece quando as pessoas trabalham juntas. Na tua experiência, qual a importância dos artesãos se organizarem em redes, associações e coletivos?  

Bem, para mim é muito importante. Sempre eu digo que a cerâmica não é uma profissão ou algo que a pessoa trabalha sozinha. Sempre tem que ter alguém para tirar o barro, alguém para tratar o barro. 

Então, é uma arte que precisa de várias mãos para poder sair uma peça. Inclusive, as estatuetas que nós fizemos para o congresso de arqueologia, 300, teve mão de mais de dez pessoas na produção. E quando a gente mostra esses bastidores as pessoas ficam encantadas. Para mim, a união é o que faz a força. 

A gente trabalha sozinho, a gente fica invisibilizado. Quando a gente trabalha em rede, alcança outra proporção. Principalmente hoje, porque sempre eu digo aqui que não dá pra eu fazer produção, não dá pra eu tirar barro, não dá pra cuidar das minhas redes sociais, porque eu não consigo fazer tudo sozinho. 

Tem que ter a ajuda de outras pessoas. Quem dera nós tivéssemos pelo menos 20 ceramistas aqui em Santarém. Hoje, a produção é independente, tem uns dez. Só que cada um trabalha na sua casa, aí quando tem uma demanda muito grande, se reúne e produz.  

E aqui, no nosso ateliê, virou tipo um polo de apoio, a gente fornece barro para esses artesãos, a gente fornece ferramentas para eles trabalharem e também a queima. 

E vira e mexe, estão por aqui, produzindo, trabalhando. Tem um ou outro que quer produzir para si, né? Mas, geralmente, a gente tem uma boa articulação entre eles, né? De grupo, que nem o primeiro projeto.  

Qual o futuro que você deseja para o artesanato brasileiro e para as novas gerações de artesãos?  

Tem a ver com uma questão que a gente sempre fala: é artesanato ou é arte? Eu vejo muito o pessoal subjugar o artesanato como se fosse alguma coisa inferior à arte. E eu penso que o artesanato é arte. E, assim, o meu desejo é que esse artesanato seja reconhecido como arte, seja divulgado amplamente como objeto de arte, obra de arte. Porque isso traz uma relevância muito grande aqui pra nossa região. A gente passa a ser reconhecido, ser respeitado como artista, artesão. 

É a questão de reconhecimento. Eu acho que não tem dinheiro que pague um reconhecimento, a pessoa ser reconhecida através de sua arte. 

E eu desejo também que seja que tenha continuidade. Então, não adianta ficar somente na minha família, a gente precisa abrir espaço pra qualquer pessoa que queira aprender. Para a continuidade da nossa cultura. 

E a gente tá organizando espaço aqui em casa pra fazer uma futura escola de arte, de modelagem. Chegar aqui do básico e sair com o PHD aqui da cerâmica. 


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