Embaixadora Cecília Gouveia

Cecília Gouveia é filha de pescadores do Quilombo de São Lourenço, na cidade de Goiana – PE. O artesanato produzido pelas artesãs e marisqueiras no Quilombo de São Lourenço carrega as histórias e registros da cultura local. Nas linhas coloridas dão pontos a formarem redes, similares às tradicionais usadas na pesca artesanal, porém atualizadas em suas formas e usos nos acessórios. 

Nesta entrevista, Cecília fala sobre o que artesanato representa para ela e sua comunidade, a busca pela igualdade de gênero entre artesãs e artesãos, suas expectativas para o futuro e como é importante fazer parte de um coletivo.  

O que o artesanato representa na sua vida e na história da sua comunidade?

Bom, vou começar pela minha vida. Hoje, o artesanato representa tudo na minha vida. Foi minha independência real, não a financeira, porque eu já trabalhava, mas foi uma independência realmente de ser o que sou hoje. Eu comecei a ser uma pessoa diferente após trabalhar com o artesanato, me redescobri com minhas origens quilombolas, passei a ser mais consciente quanto aos propósitos, que eu nunca tinha pensado, como uma vida sustentável, uma vida de companheirismo das minhas colegas. Viver no coletivo é desafiador, mas também é tão gostoso.  

Então eu sou outra pessoa depois do artesanato. Hoje sou mais falante, mais expressiva, todo mundo me vê nas redes sociais e acha que eu nasci assim, mas eu não nasci assim. Fui me moldando para poder mostrar meu produto, meu trabalho. É tudo uma questão de treino, comecei a me aperfeiçoar, falar melhor, me posicionar bem diante das pessoas e diante das situações.  

Então tudo isso eu devo ao meu trabalho. O artesanato hoje para mim é poder ser o que eu sou mesmo, uma artesã. Peguei essa vivência para mim, para a minha vida. Eu criei minhas filhas aqui dentro desse mundo, desse universo e a partir daí começou a mudança na minha comunidade.  

Eu mudei a vida de outras mulheres também. As mulheres mudaram de atitude dentro de casa. Elas, que nunca tinham saído do seu próprio território, saíram para viajar para outros lugares, outro país. Perceber que aquilo ali precisava da dedicação delas 100%, que elas precisavam estar sorridentes para mostrar os produtos delas e que tudo que elas tinham era verdade. Então isso mudou muito a perspectiva das mulheres da minha comunidade. 

Aí também virei uma liderança, muitas vezes não do jeito que eu gostaria, mas mudei bastante e virei essa liderança. As pessoas entenderam que isso também é bom para a minha comunidade, comecei a trazer visibilidade para a minha comunidade através desse trabalho, através do artesanato.  

Quem vê seus vídeos não imagina isso… 

(risos) Eu sempre fui tímida, muito calada. Minha mãe falava assim: “ela se resolve”. Então sempre fui muito fechada. Não que eu não gostasse de falar com as pessoas, eu sou sagitariana e gostava de falar com as pessoas. Mas não tanto assim, de estar à frente de tudo. Mas comecei pensando: “bom, se eu preciso desse negócio e ninguém está se mexendo, eu vou me mexer”.  

Me lembro quando comecei a seguir o perfil da Rede Artesol, que comecei a entender o que eram as redes sociais, o Instagram, o WhatsApp. E pensei “se as meninas não estão se mexendo, quem vai se mexer sou eu”. Hoje em dia todo mundo fala “nossa, como você se expressa bem”. Teve até um menino que veio aqui na comunidade, um assessor de vereador, que disse que queria gravar vídeos como eu, que a minha dicção era perfeita, que dava para entender tudo o que eu falava. Mas eu treino muito! Preciso entender que as pessoas do outro lado têm que prestar atenção no que eu estou falando. Eu realmente fui me moldando para falar assim com as pessoas.  

Temos ouvido, principalmente das mulheres, que o artesanato tem trazido o reconhecimento desse potencial. Você disse que o artesanato possibilitou que você se reconhecesse como pessoa, e como você passou a ter essa independência real…  

Exato, estive na Fenearte e voltei para casa cheia de presentes, que recebi dos amigos artesãos. Já são quase 15 anos que estou dentro da feira, e volto para casa sempre cheia de coisas. Eles me dão por carinho. Eu recebi uma escultura linda de um mestre, o senhor Adilson, uma marisqueira. Ele falou que viu na foto e se lembrou de mim. Fez igualzinho a gente faz, do mesmo jeito como a gente cata o marisco. E falou: “ó, é seu presente”. Eu disse: “Meu Deus, meu mestre! Não pode”. Ele: “pode, sim, é seu presente, viu?” Então, ao final da feira, terminei sendo muito presenteada por todos. Fico pensando que nem merecia isso tudo… 

Além de criar as peças, você também transmite conhecimento, ensina as pessoas, mobiliza. Como você enxerga o papel de uma mestra, de uma liderança no fortalecimento do território? 

Ah, é fundamental repassar esse saber e prestar atenção para quem repassar. Porque não é só ensinar por ensinar, ou ensinar para qualquer pessoa, é ensinar para quem vai multiplicar isso. Então, esse é o verdadeiro talento do mestre, talento do artesão, da liderança, é guiar essas novas gerações, guiar o novo artesão para mostrar a riqueza desse trabalho. E é importante também não só ensinar a técnica, mas passar o sentido, de coração, mesmo. Mostrar que se faz isso porque gosta: “olha como é gostoso fazer isso, olha como mudou a minha vida”. 

A gente faz isso também como liderança, mostramos como tal coisa que fizemos deu certo. Esses dias falei justamente isso. Estava em uma reunião com lideranças na comunidade que queriam mudar algumas coisas, perguntando como a gente fazia sobre lixo dentro da comunidade. 

Existe uma dificuldade muito grande relacionada ao lixo e todo mundo ficou falando que “os políticos não querem fazer nada”, criticando o poder público e tudo mais. E eu falei: “gente, eu sei que o poder público está muito ruim, por isso precisamos prestar atenção em quem vamos votar. Mas se começarmos a fazer a nossa parte em casa, podemos ser o espelho do vizinho, que vai ser espelho do outro vizinho”. Então sugeri que eles começassem separando o lixo e fazendo compostagem em casa. Porque se você começar a fazer, é um trabalho de formiguinha, mas que funciona. 

E o que a gente está fazendo hoje, é isso. A gente se junta aqui no coletivo, que não é formado por uma comunidade inteira, são poucas pessoas fazendo a reunião, que depois vai reverberar para todo mundo. Primeiro a gente precisa mostrar a nossa potência, como a gente faz, depois é que isso vai ter efeito no poder público. Liderar é gerir aquilo que já está funcionando.  

Tem um ponto muito forte que também temos escutado dos embaixadores e embaixadoras, de que as lideranças, os mestres e mestras, servem como exemplo. Não passam apenas a técnica, dão exemplo da própria vida, de como o artesanato transforma a vida. Isso é muito poderoso para as pessoas aprenderem…  

Tem mestre que quando vai começar a falar já diz: “olha, eu já lutei tanto, já fiz tanta coisa”. Eu sempre falo para eles: “não comece a falar assim não, comece dizendo de como o senhor ou a senhora gostam de fazer as coisas, como isso mudou o seu olhar quando começou a fazer”. Porque sempre tem uns mestres que falam da luta, de como estão cansados. Mas a gente já sabe disso. O mais importante é eles falarem o porquê fazem isso. Porque é bonito, é legal, a gente muda. E eles estão há tantos anos fazendo também. 

E a gente sabe que o artesanato se fortalece no coletivo, quando as pessoas trabalham juntas. Na sua experiência, qual é a importância dos artesãos se organizarem em redes, associações, coletivos, formais ou informais? 

Pois é. Eu acho importante o coletivo, nem sempre vai ser mesma forma para todo mundo. Para algumas pessoas o coletivo não funciona, mas o coletivo traz essa potência, de se organizar, pedir ajuda. É uma das principais fontes. Precisamos começar o artesanato na base, de forma individual, mas depois é importante entrar num coletivo, pelo menos para poder pedir informação, saber como se organizar melhor. 

Eu tenho um grupo com mais quatro artesãs, é um grupo só nosso, mas nós conversamos muito, estamos sempre nesses momentos de dividir experiências, uma vai dando dica para outra. Às vezes é uma coisa básica de conhecer lojas, fornecedor. Outras vezes tem dica de fotografia… Então isso vai gerando o assunto dentro do grupo.  

Esse coletivo é feito por um grupo de amigas. Nos conhecemos numa feira e nunca perdemos contato. Fizemos um curso juntas e nunca nos largamos. Tem uma que faz macramê, outra reciclagem, a outra crochê. Então cada uma tem uma técnica e nós vamos conversando sempre com algum assunto. Uma vai ajudando a outra. 

E isso mostra a potência do coletivo. Ser um artesão individual é uma opção que às vezes não é tão fácil. Algumas pessoas não conseguem fazer isso no coletivo e está tudo bem. Mas estar em coletivo é muito bom para potencializar esse seu fazer, pensar junto. 

Esse ano mostramos as peças novas no nosso coletivo. Cada uma mostrou na reunião para o grupo, e todo mundo ficava olhando, analisando, dando a dica, falando isso, talvez isso aqui do outro. Isso fortalece, é essa ideia de quando a gente está junto as coisas fluem melhor. Sempre fluem melhor.  

Agora, o que você deseja para o futuro do artesanato brasileiro e para as novas gerações?  

Nossa, essa é uma pergunta que tenho desde sempre! Para o futuro do artesanato eu quero igualdade de gênero. Eu ainda sinto muito essa desigualdade de gênero muito grande, tanto quanto a exposição, quanto a reconhecimento, principalmente reconhecimento do feminino, é ainda muito, muito devagar. Cite uma artesã que está famosa e chique. Sempre demora um pouquinho para lembrar. Mas se eu perguntar de um artesão que está bombando hoje, já tem vários na mente para falar, isso é claro.  

A própria Alameda dos Mestres, na Fenearte, mostrou isso…  

Pois é. É muito, muito masculino… Quando você vê mulheres, e quando você tem mulheres lá, elas estão fortalecendo um coletivo. Elas vieram a partir de uma associação, a partir de uma técnica que aprendeu com várias outras mulheres. É muito claro isso. E não é sempre assim que acontece. Essas que ganharam visibilidade, elas até começaram assim, têm isso, mas muitas vezes o protagonismo feminino é muito individual. E isso não é mostrado. Começam primeiro pelo coletivo. Já os mestres não. Os mestres são mostrados como se eles fizessem tudo só, eles começaram individualmente, aí depois abriram um coletivo, um instituto e série de coisas. E não é bem assim. Se não tivesse a família, nem a mulher do lado fazendo tudo, nem os filhos. 

Geralmente é isso que acontece. A mulher que começa a pintar uma peça, a filha que começa a vender, que ele nem gosta de vender tanto assim, ele vai para feira, e se quiser vender, vende, se não quiser ele não está nem aí. Mas geralmente são os filhos que começam a vender, começam a mexer nas redes sociais, e isso não é falado, não. Nunca é falado…  

Fizemos uma pesquisa em 2022 com a Rede Artesol e essa desigualdade de gênero fica muito clara quando vemos a faixa de renda. Quase 90% da rede é feita de mulheres e as pessoas que têm a maior renda na rede são os homens. 

Para você ver… Um dia quero alcançar essa igualdade, de modo que a nossa carteira de artesã não seja apenas algo para dar visibilidade, que traz prestígio, mas ser também um registro formal em que eu possa daqui a algum tempo me aposentar e dizer “eu sou artesã de profissão, esse aqui é o meu documento, eu tenho tantos anos de profissão e tenho direito de me aposentar, porque eu sou profissional”. 

Isso também é uma coisa que eu queria muito ver no futuro. Que as próximas gerações consigam olhar de forma mais encantadora para o artesanato. Todo mundo fala que é cansativo, e não quero que eles enxerguem dessa forma. Hoje minhas filhas ainda enxergam dessa forma, de que é trabalhoso. Elas adoram artesanato, vivem dentro disso aqui, gostam, fazem algumas coisas, mas ainda não é a beleza delas, então desejo muito que as próximas gerações enxerguem isso como uma beleza das artes brasileiras, o mundo inteiro, não só o Brasil, mas o mundo inteiro, que isso seja visto como uma das belas artes. 

Para terminar, o que significa para você fazer parte da rede Artesol e atuar como embaixadora?  

A rede tem muito papel importante na minha vida, muito mesmo, cada conversa, cada pessoa que eu conheço. Certa vez fui a São Paulo, estava em uma loja, falando com a vendedora que eu conhecia de quem eram aquelas peças de artesanato que estavam lá para vender e ela me convidou para vender meu trabalho lá. Eu falei: “não, moça, eu sou de Pernambuco, eu cobro muito caro’. E ela: “mas você conhece todo mundo aqui nessa loja?”. Então, é sobre isso. Eu comecei a conhecer todo mundo, essas amizades, esse jeito de falar com todo mundo e conhecer, foi por causa da rede, foi dentro da rede. A rede significa isso, o cotidiano de ser artesã. O olhar que eu tento colocar dentro do meu coletivo é através dos ensinamentos da rede. É lá que a gente aprende… essa participação do lojista com o artesão, que eu tento brigar e falar: “gente, nem sempre é do jeito que a gente quer, precisamos nos colocar no lugar do outro”. 

Isso tudo é graças à rede. E ser embaixadora é estar dentro disso, participar realmente da rede, não só como membro, mas estar dentro desse mecanismo, conseguir, de alguma forma, mostrar tudo isso que eu aprendi para outras pessoas, para dizer: “olha, vem para a rede também, vem entender como que funciona, entender que a gente faz outras coisas aqui, não só olhar para o artesão de forma carinhosa, mas olhar também de forma técnica. Ser embaixadora é isso, é ajudar com esse olhar técnico, que eu gosto sempre de ter.  

*O Programa de Embaixadores/as da Rede Artesol busca reconhecer, fortalecer e articular lideranças locais que representam e promovem os valores, os saberes e as ações da Rede Artesol em seus territórios, atuando como pontes entre suas comunidades e a rede nacional.