Cátia Conceição Bento é artesã do Fibra e Arte, um coletivo formado por um grupo familiar do Quilombo do Campinho, de Paraty – RJ. O trançado está na família há pelo menos três gerações, e é uma das principais atividades produtivas do seu território. As artesãs e artesãos trabalham com cinco tipos de fibra: a taboa, o cipó imbé, o bambu, a taquara, cipó ticumpeba e a fibra da juçara – todas espécies encontradas na Mata Atlântica. No Fibra e Arte, eles trabalham especialmente com a taboa e a taquara, por estarem disponíveis em abundância no Quilombo. Com as fibras, produzem cestos, bandejas, boleiras, tapetes, luminárias, chinelos e o que mais a imaginação lhes permitir.
Nesta entrevista, Catia fala um pouco sobre seu trabalho como artesã, o legado de sua família e a importância do artesanato para o território.
Catia, você vem de uma família de artesãos. Conta um pouco sobre como tudo começou…
Bem, eu sou moradora do Quilombo do Campinho, o primeiro Quilombo titulado do Rio de Janeiro. E aqui no Quilombo temos cinco ateliês, mais a casa de artesanato, que era onde todos os ateliês ficavam concentrados antes. Depois cada um viu a necessidade de ter o seu ateliê próprio. Mas na minha família somos em quatro. Eu trabalho com meus pais e minha irmã. Nosso coletivo é o Fibra e Arte.
E eu venho desde nova trabalhando com artesanato. Comecei por causa de minha avó, que já fazia artesanato. Minha mãe sempre ia lá e desde pequena ia junto com ela… acho que tinha uns sete anos e já fazia fundinho de cestaria, que minha vó pedia. Ela recebia encomendas e aí a gente ia fazendo, era até na taquara.
Com o tempo o artesanato foi se intensificando cada vez mais na minha vida, porque minha mãe já trabalhava com artesanato e minha avó já vinha com esse legado também. O sonho dela era que a gente não trabalhasse fora. Trabalhamos muito em casa de família… quando era nova saí para estudar fora, e quando retornei também vi a necessidade de ter um trabalho onde não precisasse estar saindo, como ela mesmo falava.
Ela queria que a gente trabalhasse aqui e ganhasse aqui, só que era muito difícil, o artesanato não tinha esse reconhecimento. Depois da pandemia que deu um boom sabe. Trabalhamos muito com objetos de decoração também e tivemos que fechar nosso ateliê porque a gente não conseguia produzir… vinha gente até aqui no ateliê pra ver e nada. Aí depois comecei a colocar no Instagram e nisso as pessoas começaram a procurar, muitos lojistas procuraram.
Então o artesanato entrou na minha vida através da minha família. Hoje eu acho que é como se fosse uma terapia, eu já sou calma, mas quando tô fazendo artesanato, fico mais calma ainda. O artesanato traz uma tranquilidade, eu começo a criar, ter ideias, procuro algumas peças de outras pessoas pra me inspirar, não pra fazer igual, mas pra ver o que posso criar dali.
Nosso ateliê não é tão grande, mas tem as encomendas e isso traz uma fonte de renda. Gostaria muito que essa cultura do artesanato continuasse dentro da comunidade, aqui tem muitos artesões hoje em dia que dependem dessa fonte de renda, trabalham somente com isso. E pra mim o artesanato foi como uma chave, porque eu também tive minha família, e hoje eu não preciso sair para trabalhar fora, eu posso criar minha filha ao meu lado por causa do artesanato. Com isso, fui praticando cada vez mais , desde criança venho aprimorando.
Você falou bastante desse papel da família, desse envolvimento com a comunidade. Como você enxerga o papel de mestres e mestras, as lideranças do artesanato, no fortalecimento do território, da comunidade?
Catia: Os mestres têm toda uma importância, porque são eles que passam esse legado pra gente. Ali, da minha família, começou com meus avós, hoje tem tios, primos, todos envolvidos no artesanato. Então é muito importante, porque eles que ensinam pra gente… Quantas vezes eu fiz uma peça, terminei e o mestre olhou e falou “essa peça não dá pra botar, é meio torta”. Aí você fica pensando “eu não vou desmanchar, já fiz a peça”. Mas o mestre te olha e fala: “você acha que se você desmanchar, se você fizesse novamente, não ia dar outra cara, não ia ter um outro sentido?”.
Então a gente tem que escutar. É aí que a gente vai aprendendo. Comigo já aconteceu assim, como aconteceu com minha mãe. Os mestres trazem muitos ensinamentos. Eles são fundamentais, precisamos ouvir, não tem aquela coisa de não escutar. Com eles a gente só vai aprendendo cada vez mais a aperfeiçoar. Eles contam várias histórias sobre as próprias peças, desde o manejo, como é a retirada da fibra, porque se não fosse por eles, a gente iria retirar de qualquer forma, mas o mestre falar “olha, nesse tempo, você tirando não vai ter problema com o bicho, não vai ter problema de acabar”. Então tudo isso vai sendo passado pelos mestres. Eles fortalecem cada vez mais esse legado.
Ainda nesse sentido de repassar esse legado, como você enxerga a importância das redes para o fortalecimento do artesanato? Pensando nas associações, coletivos, enfim, esses espaços de encontros em que o artesanato também se fortalece… qual é a importância de se organizar em rede, em comunidade?
Pra mim, é fundamental. Eu conheci a Rede Artesol pelo Instagram, comecei a seguir e a ver que tinha vários artesões trabalhando dentro da rede. Eu não tinha a noção do que era, e do quanto era importante estar dentro da rede, fui aprendendo aos pouquinhos, o que era estar em coletivo.
A gente já trabalhava aqui em coletivo familiar, mas nada como estar com outras pessoas que moram longe da gente. Porque cada um, no seu tempo, no seu lugar, vai mostrando suas dificuldades, suas conquistas… Então fiquei muito grata de ter entrado na rede, foi uma felicidade tão grande, porque foi uma surpresa pra todos da nossa família. Minha mãe, meu pai e minha irmã, a gente participa das reuniões, vê cada peça linda, sabe de cada artesão, cada uma com sua técnica. A gente vai aprendendo com vocês, aprendi muita coisa que eu não sabia, que a gente poderia ter uma fonte de renda para além de só fazer a peça, que dava para entrar em editais… tive uma mentora logo depois que a gente entrou, que foi a Andrea. Ela deu esse suporte pra gente muito bem dado, cresci muito com tudo que foi passado.
Vocês estão na rede desde 2024…
Sim, e foi muito bom pra gente. A mentoria da Andrea passou vários ensinamentos também, cada coisinha que ela ia falando, eu ia marcando no caderno, corri atrás e começou a surgir aqui mesmo em Paraty alguns editais, então me agarrei aos editais, escrevi, a gente conseguiu entrar, aí fomos pro Sesc, eu e minha irmã, foi muito bom esse aprendizado também. É muito legal participar desses espaços, de poder conversar, ter essa escuta, que às vezes, nas correrias, não dá tanto.
Pensando justamente nessas novas gerações de artesãos, qual é o futuro que você deseja para o artesanato brasileiro, ou seja, que futuro que você imagina para os próximos artesãos e artesãs?
Ah, eu espero passar esse legado pra muita gente, para crianças, jovens, adultos. O artesanato é muito importante como fonte de renda, mas também como forma de criação, da pessoa criar aquilo que tem em mente, sabe? É preciso ter mais consciência de que o artesanato é importante desde a hora que o artesão coleta uma fibra e depois vai trabalhar com ela. Eu vou levar isso daqui para frente para cada dia mais conscientizar as pessoas sobre a importância do fortalecimento do artesanato, porque a gente precisa muito disso. Precisamos que as crianças saibam disso, porque muitos jovens só querem as coisas rápidas, aquela coisa que surge uma encomenda, o artesão faz e ele vende. Mas não é só isso, as peças têm uma história e a gente tem que viver essa história e passar pra frente.
O que significa para você e para toda comunidade, fazer parte da rede Artesol e atuar como embaixadora?
Quando o convite de embaixadora chegou pra mim, eu abri e comecei a ler, eu falei “meu Deus! ah, isso eu não consigo!” Eu nem sabia o que era ser um embaixador ou embaixadora. Aí comecei a pesquisar, ali na carta já vinha já falando um pouco o que ia fazer, aí fiquei com aquela dúvida: “será que consigo?” Mas não demorei muito pra responder sim, porque é uma história que já vem lá de trás, com minha avó e eu quero passar isso pra frente.
Venho sempre colocando isso em todos os vídeos que a gente faz do nosso artesanato, de estar passando esse legado pra frente, mostrando, transmitindo saberes. Então, eu me agarrei nisso como se fosse uma honra, sabe? Uma honra mesmo estar dentro desse grupo de embaixadores, estar dentro da rede. Se fui selecionada pra isso é porque tem uma razão de ser, um convite não vem à toa. Porque quando vem um convite, você deve cada vez mais se inspirar e ir com isso pra frente, então pra mim foi uma inspiração, uma honra grande estar dentro da rede e poder passar isso para outros artesãos, porque ainda tem muitos que não sabem muita coisa, como eu não sabia e ainda estou aprendendo.
Você é a artesã que está há menos tempo na rede, e a mais jovem embaixadora também. É muito interessante ter essa força nova aqui na rede, isso que você falou, de buscar o conhecimento e repassar, é fundamental. Porque os embaixadores são os nossos pontos de apoio, que vão ajudar na difusão do conhecimento, das oportunidades…
Obrigada! Antes mesmo de virar embaixadora, eu já tinha até falado para os outros artesãos sobre a importância de ter a carteirinha. Porque tem muita gente aqui que não tem carteirinha. Aí eu mesmo juntei minha família e falei “gente, vamos fazer a carteirinha, eu ajudo vocês”. Pra ter isso reconhecido. “Se você é um artesão, você tem que ter a carteirinha”, eu dizia. Mas aí muitos falavam pra mim “Eu não consigo fazer isso sozinho”. Eu ajudei muita gente a tirar a carteirinha. Gravei vídeo, trouxe pra cá, eles foram recebendo os e-mails falando que já estavam preprarando a carteirinha e ficaram muito felizes. Meus tios me ligaram, então o quanto a gente pode ajudar o outro, ajudar o próximo, eu acho super importante.
