Mestra Dinoélia Trindade é de uma família de rendeiras em Saubara, recôncavo baiano, mas firmou-se na região metropolitana de Salvador. Ao observar as vulnerabilidades sociais da cidade de Dias d’Ávila, ela escolheu uma missão e uma responsabilidade: usar o artesanato como forma de emancipação e repassar seus conhecimentos na arte de rendar, especialmente, o bilro.
Primeiro a artesã abriu as portas de sua casa para receber as interessadas no ofício. Pouco depois, em 2009, fundou a Associação das Rendeiras de Dias d’Ávila – Rendavan. O objetivo é fomentar o empoderamento de mulheres, o repasse e a preservação da renda de bilro.
Atualmente, a entidade reúne mais de 60 associadas e ensina gratuitamente o bilro e outras tipologias, além de participar de feiras, realizar articulações locais e políticas e colaborar para o desenvolvimento socioeconômico da região.
Uma das iniciativas da Rendavam é o Projeto Nosso Bordado, que forma artesãs locais para serem multiplicadoras dos conhecimentos artesanais, e já contemplou mais 2.500 pessoas. Além disso, a organização é reconhecida como Pontão de Cultura pelo Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura.
Reconhecida como Mestra pelo Programa do Artesanato Brasileiro e como Mestra Imortal da Cultura Popular Tradicional pela IOV/UNESCO, Dinoélia carrega consigo a arte de tramar: não apenas o bilro, mas a força das mulheres. Os diversos – e necessários – reconhecimentos reforçam seu senso de responsabilidade e solidariedade a partir, e com, o fazer e pensar artesanal.
Confira abaixo mais sobre sua história, visão e sonhos para o artesanato brasileiro.

O que o artesanato representa na sua vida e na história da sua comunidade?
O artesanato é uma bandeira que eu trago. Eu não consigo me ver sem o artesanato por dois motivos. Primeiro pela manutenção da técnica, para manter a cultura popular. E segundo pela tradição familiar.
Eu sou a quinta geração de rendeiras da família e para mim esse artesanato é como se fosse minha mãe, minha avó, porque foram elas que deixaram esse legado para mim. Eu trago isso com muito orgulho, com muita alegria, de estar mantendo esse artesanato na família.
Eu me sinto muito feliz de estar podendo contribuir com a minha comunidade, com o município, com o Estado. É um motivo de muita alegria.
Ao longo desses anos, o que mudou e o que a renda trouxe para a comunidade?
Aqui, no lugar que eu vim morar, era um local, na época, que não era muito bem visto. O índice de violência era alto. E eu observava também a falta de ações públicas e a comunidade com autoestima baixa.
E aí foi que eu pensei ‘eu posso ensinar o que eu sei’. Eu sabia da força do artesanato tradicional, que tem uma técnica milenar, e que se chegou até esse tempo é pelo alto valor e poder de transformar. Eu disse ‘eu posso ensinar a renda de bilro para esse pessoal aqui’. A gente observou que havia outras técnicas, como o bordado e o crochê, mas a renda de birro não tinha. E nós ficamos aqui, fazendo reuniões, até chegar ao ponto de formar a Associação.
Então, você pegar uma comunidade, ou uma pessoa da comunidade que não tinha uma formação, ofertar a essa pessoa a oportunidade de ser capacitada e estar gerando a sua renda dentro da sua própria comunidade, foi isso que fez a gente contribuir com a mudança.
Eu sempre digo às alunas que nós estamos aqui, também, para gerar essa mudança do nosso ponto de vista, de como a gente se enxerga e como a gente pode entender que nós temos potencial de transformação, nós somos esses agentes de transformação de mudar uma realidade das pessoas e a realidade local, e nós conseguimos fazer isso aqui.

Como que você enxerga o papel de uma mestra, de uma liderança do artesanato, no fortalecimento do seu território?
Eu sou hoje reconhecida como uma mestra imortal pela Unesco. A arte que me levou a isso. Eu não sabia nem o que significava Unesco. O artesanato para mim é minha identidade.
Eu não era mestra. Através do repasse do saber, através da comunidade, é que eu sou hoje uma mestra. Então, eu tenho esse dever com a comunidade e com a preservação, com a salvaguarda do meu artesanal. Eu não consigo me ver em lugar nenhum sem que esteja lá com esse propósito de levar a cultura, com aquilo que é a minha identidade.
Eu acredito que todos os mestres devem ter também esse sentimento de levar essa bandeira para salvaguardar a sua arte popular.
Como que você vê a importância dos artesãos e artesãs se organizarem em redes, associações, coletivos?
Sem essa rede, nós não temos perna para andar. Precisamos das parcerias, precisamos trabalhar em rede, é isso que nos fortalece.
Nós temos ainda tantas coisas para conquistar, principalmente quando se refere aos mestres. Estamos na luta para que exista uma garantia para o repasse do saber, que seja algo protegido por lei, e uma questão de um município ou Estado.
Ser embaixadora, ser mestre, isso tudo ajuda a gente a fortalecer e a levar os gestores a pensarem na importância de trazer políticas que venham a valorizar e dar uma garantia para os mestres.
O que você espera para o futuro do artesanato brasileiro e para as novas gerações?
Eu espero verdadeiramente que o nosso artesanato tradicional continue vivo e que as futuras gerações, através daquilo que nós estamos lutando no tempo presente de ter políticas públicas e valorização, possam ter o prazer de dizer que também querem isso para si.
Porque se a gente não estiver lutando por isso, talvez as futuras gerações não tenham essa garra, esse prazer de chegar até lá, porque vão dizer ‘o que adianta? Por que ser mestra? Qual é a garantia que eu tenho de sustento, de ter uma valorização financeira?’
Espero que as futuras gerações possam ver esse reconhecimento dos mestres no tempo presente. Não só da sua arte, mas de garantia financeira para o repasse da sua arte.
No tempo presente, de resposta rápida, de ansiedade que nós vivemos, o artesanato tradicional é a luz, é o caminho, porque a gente, através da arte, desenvolve várias habilidades que é fundamental para o nosso bem psíquico e até para a nossa alma.
Porque quando nós estamos ali tecendo, quando o ceramista está ali fazendo sua cerâmica, sua arte, ele está envolvendo sentimento, está envolvendo o seu o seu amor. Então, o artesanato ele é a ferramenta principal para o combate desse tempo de ansiedades.

*O Programa de Embaixadores/as da Rede Artesol busca reconhecer, fortalecer e articular lideranças locais que representam e promovem os valores, os saberes e as ações da Rede Artesol em seus territórios, atuando como pontes entre suas comunidades e a rede nacional.
