A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Zé Bezerra – Esildo Barros Ramos


Da madeira morta, encontrada no semiárido pernambucano surgem cobras, pebas, lagartos, gatos e tantos outros animais da fauna buiquense.

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Sobre as criações

Da madeira morta, encontrada no semiárido pernambucano surgem cobras, pebas, lagartos, gatos e tantos outros animais da fauna buiquense. Zé Bezerra conta que foi em um sonho, deitado em sua rede na parte externa de sua casa que recebeu o recado que mudaria o rumo da sua vida. Eram 3 horas da madrugada quando conversou com uma pessoa que tinha um manto na cabeça e disse que ele iria viver das matas.

“Ele disse: “A madeira morta na sua mão vai passar a vencer. Porque você tem que lembrar da carne do gato, do peba, do lagarto que você comeu… Em resumo: todos os animais que eu já tinha comido ou vendido na feira pra conseguir o que comer, eu os faria em madeira”.

Crédito da foto: Gessica Amorim

Todas as esculturas são talhadas à mão, com ferramentas que ele mesmo cria para se adaptar às necessidades dos trabalhos feitos.

“Pego um cano, dobro, desdobro e monto ferramentas para trabalhar. Tenho um serrote, uma machadinha. Tudo manual, sem motor”.

Zé Bezerra não gosta de polir suas obras e essa é uma das características que diferencia seu trabalho dos outros mestres e artesãos locais. conta que quando olha um pedaço de madeira/pau ele já consegue imaginar pernas, olhos e os bichos que podem nascer dali.

“Tem vezes que a madeira chega e eu não faço quase nada, ela já vem pronta”.

Sobre quem cria

Esildo Barros, conhecido como Zé Bezerra, nasceu em Buíque/PE, mas foi no Vale do Catimbau, distrito da região que fincou raízes e construiu família, casa e ateliê. Ele conta que os pais não trabalhavam com madeira, os tempos na sua infância eram difíceis e a criação não era o foco, nem a fonte de renda da família. Zé, antes de entrar em contato com a madeira, costumava caçar na região, e assim levava alimento pra casa e também vendia na feira.

Crédito da foto: Gessica Amorim

Segundo ele, foi em um dia de muito desencantamento e desgosto com a vida que recebeu o recado em sonho que precisava representar suas caças em madeira. Zé Bezerra, iniciou suas criações já adulto, por volta dos quarenta anos de idade e desde então vem se dedicando diariamente ao ofício, passando para filhos, esposa e compartilhando com todos que tenham interesse em aprender.

“Pra mim é um prazer trabalhar com madeira, sou o mestre mais antigo da região, formei mais de 40 artesãos e dei muitas dicas. As pessoas viram como a madeira mudou minha vida. A gente se ajuda”.

Zé Bezerra também é músico e criou um instrumento que ele chama de “berimbau forrozeiro”. Ele conta que depois do recado recebido em sonho ficou pensando como poderia fazer para chamar a atenção dos turistas que passavam pelo Vale do Catimbau.

“Peguei um bule na casa da minha mãe, outro bule na casa da minha irmã e com arame criei o berimbau. A partir daí comecei a cantar e tocar para chamar a atenção dos turistas”.

Zé canta, cria poesia e diz ser “um palhaço sem pintura” porque gosta muito de brincar.

Sobre o território

Zé Bezerra tem sua casa/ateliê localizada no Vale do Catimbau, distrito de Buíque, portal do sertão Pernambucano. No Vale do Catimbau encontra-se o segundo maior parque arqueológico de pinturas rupestres do Brasil, sendo o primeiro, a Serra da Capivara no Piauí. As pinturas datam de 2000 a 6000 anos, realizadas por povos caçadores e coletores que habitavam e usavam o parque e as regiões rochosas com abrigo.

O bioma é a caatinga, exclusivo do nosso país. Para os que olham superficialmente, parece demasiado seco, mas nos pés da serra encontra-se um grande aquífero que abastece toda a região e permite que fontes de água potável sejam encontradas nas proximidades.

É nesse ambiente abundante de pássaros, répteis, roedores, raposas e tantos outros animais que Zé encontra inspiração para suas criações. A madeira costuma vir de cidades próximas como Tacaratu, Tupanatinga e Ibimirim. Alguns amigos dessas cidades ajudam o mestre na busca da matéria-prima que é comprada e trazida de caminhão.

Zé sempre usa a madeira morta, nunca viva, porque foi assim que ouviu em seu sonho. Muitas vezes passeando pela região, beirando açudes ou dentro da mata, olha pra um pedaço de madeira e já enxerga a obra pronta, pede ajuda e leva a matéria-prima para casa.

Atualmente na região do Vale já existem cerca de 14 artesãos e mestres que dedicam a vida ao entalhe, José é o mais antigo e foi responsável pela formação da maioria deles.

Zé Bezerra já percorreu muitas cidades brasileiras com seu trabalho, participando de feiras, exposições e sendo convidado por galerias e centros de arte e cultura para apresentar seu trabalho. Atualmente conta com a ajuda de filhos, amigos e outros mestres, como Luís Benício, para vender, embalar e enviar seus trabalhos para clientes que compram suas obras.

Quem passa pelo ateliê de Zé Bezerra encontra um mestre no entalhe, mas também um contador de histórias e músico sempre de braços abertos. O ofício de mestre permeia a vida de Zé Bezerra de forma generosa, compartilhando saberes, vivências e alegrias.

“Quando eu me mudar, porque não vou morrer, vou me mudar, eu acho que vou continuar fazendo alguma coisa de madeira”.

Crédito da foto: Gessica Amorim

Crédito das fotos: Gessica Amorim

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