No Cariri Cearense, aos pés da Chapada do Araripe, natureza, fé e cultura popular se entrelaçam. Couro, cerâmica, rendas, xilogravura e entalhe atravessam municípios e gerações, formando uma rede de mestres, artesãos e aprendizes que mantém vivos os saberes e a potência criativa desse território.

O território

O Cariri Cearense está localizado no sul do Ceará, tendo como um de seus principais centros urbanos o conjunto formado por Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha, conhecido como CRAJUBAR. A região se desenvolve aos pés da Chapada do Araripe, formação geográfica que atravessa as divisas entre Ceará, Pernambuco e Piauí e guarda uma das mais importantes reservas paleontológicas do país.

A chapada abriga uma floresta nacional, uma APA (Área de Proteção Ambiental) e um Geoparque. Araripe vem do tupi ararype e quer dizer “no rio das araras”. O nome por si só fala bastante sobre o território que conta com uma bacia sedimentar que banha a região com 348 fontes naturais de água e transita entre três biomas: caatinga, cerrado e mata atlântica, sendo a vegetação predominante de cerradão, com árvores de até 15 metros. Os municípios mais próximos são Exu e Crato, de um lado Pernambuco, do outro Ceará. Dois biomas diferentes beiram a Chapada que conta histórias que precedem a humanidade, da era mesozoica. Na região foram encontrados fósseis de dinossauros de diversas espécies pelo Museu Nacional da Universidade do Rio de Janeiro.

Esse contexto geográfico permite o entendimento do Cariri como “oásis do sertão” cearense. Região verde, montanhosa, abundante em água, com casas coloridas, onde a cultura popular e o artesanato pulsam e ocupam a cidade de forma harmônica e acolhedora.

O território reúne uma extraordinária diversidade de manifestações da cultura popular, religiosidade e saberes artesanais, que atravessam as fronteiras entre seus municípios e fazem do Cariri um dos mais importantes territórios culturais do Nordeste. Couro, cerâmica, madeira, fibras, têxteis, instrumentos musicais, brinquedos e tantas outras formas de criação convivem com romarias, música e festas. 

Como nasce um território criativo?

O Cariri Cearense reúne uma grande diversidade de saberes e fazeres artesanais, que circulam entre seus municípios e ajudam a construir uma identidade cultural comum. Couro, rendas, xilogravura, entalhe em madeira e cerâmica estão entre as técnicas que se destacam na região, sustentadas por gerações de mestres, artesãos e aprendizes.

A cultura do couro principia na pecuária, atividade que durante décadas foi um dos motores da economia cearense e deu origem ao que ficou conhecido como “civilização do couro”. Com ela surge a figura do vaqueiro e a necessidade de produzir arreios, selas, cabeçadas, gibões, chapéus e outros adereços de proteção para adentrar a caatinga. Na pecuária, aproveita-se tudo do gado: carne, leite, queijo e couro. Como diria o compositor cearense Ednardo: “Do boi só se perde o berro”.

Com o passar dos anos, mestres e artesãos ampliaram as possibilidades do couro para além dos objetos ligados à vida do vaqueiro. Em Nova Olinda, Mestre Espedito Seleiro tornou-se uma das maiores referências desse saber, transformando uma tradição familiar de trabalho com selas, gibões e sandálias em uma linguagem própria, marcada pelos desenhos e cores que hoje aparecem também em bolsas, móveis e outros objetos.

Em Juazeiro do Norte, o entalhe em madeira e a xilogravura também ocupam lugar central. O Centro de Cultura Popular Mestre Noza, criado como espaço de apoio aos artesãos, reúne produção e comercialização de diferentes tipologias e leva o nome de um dos grandes mestres da arte popular da região, reconhecido por suas esculturas de santos e xilogravuras. A cidade abriga ainda a Lira Nordestina coordenada pelo mestre Zé Lourenço. Antiga Tipografia São Francisco, referência histórica na produção de literatura de cordel e xilogravura e hoje vinculada à Universidade Regional do Cariri.

As rendas também atravessam o território, como em Santana do Cariri, onde rendeiras mantêm e transmitem o saber da renda de bilro. Já no Crato, a cerâmica encontra um de seus núcleos no bairro da Batateira, onde as olarias produzem peças utilitárias e decorativas. Mestre Iedo Silva teve papel importante na formação de artesãos locais, adaptando seus conhecimentos às características do barro encontrado na região e compartilhando o ofício com novos aprendizes.

Como se mantém um território criativo?

No Cariri, a continuidade dos saberes artesanais acontece por meio de uma extensa rede de mestres, aprendizes, famílias, oficinas e espaços de circulação. Diferentes escalas de produção convivem no território: do mestre que realiza todas as etapas manualmente às oficinas que incorporam máquinas e aos empreendimentos próximos do industrianato. No couro, por exemplo, essa diversidade revela como um mesmo saber pode se adaptar a novos contextos sem perder sua relação com a vida sertaneja e a cultura do vaqueiro.

A religiosidade também tem papel importante nessa dinâmica. Falar do Cariri sem mencionar Padre Cícero parece impossível: as romarias levam milhões de visitantes à região e movimentam uma ampla rede de comércio, serviços e produção artesanal. Fé, cultura popular e trabalho se encontram, criando caminhos para que objetos e saberes circulem para além de seus locais de origem.

Mas a força criativa do Cariri vai muito além do couro. Ceramistas, xilógrafos, entalhadores, rendeiras, luthiers e grupos de artesãs mantêm seus ofícios enquanto experimentam novas formas de produzir, organizar e comercializar. A transmissão entre gerações permanece fundamental: mestres formam aprendizes, famílias compartilham conhecimentos e grupos criam espaços coletivos de trabalho e autonomia.

Essa produção também se fortalece por meio de uma rede de espaços e instituições. Em Juazeiro do Norte, espaços como o Centro de Cultura Popular Mestre Noza e a Lira Nordestina preservam e difundem importantes expressões da cultura popular, enquanto a CeArt atua na formação, comercialização e ampliação dos mercados para o artesanato da região.