A Rede Nacional do Artesanato Cultural Brasileiro é uma iniciativa da Artesol, organização sem fins lucrativos brasileira, fundada em 1998 pela antropóloga Ruth Cardoso. Seu objetivo principal é promover a salvaguarda do artesanato de tradição cultural no Brasil. Por meio de diversas iniciativas, a Artesol apoia artesãos em todo o país, revitaliza técnicas tradicionais, oferece capacitação, promove o comércio justo e dissemina conhecimento sobre o setor.

Ágata Grochot dos Santos


Sobre as criações Um delicado e minucioso mosaico feito a partir de pequenos pedaços recortados de palha de trigo que revestem objetos decorativos em padrões diversos. Vasos, caixas, baús, e […]

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Sobre as criações

Um delicado e minucioso mosaico feito a partir de pequenos pedaços recortados de palha de trigo que revestem objetos decorativos em padrões diversos. Vasos, caixas, baús, e uma infinidade de peças embelezadas com a antiga arte de origem eslava, cujos povos ocupavam a região dos Balcãs e Rússia e depois se dispersaram pelo leste europeu. Com simbologias e significados, muitos dos traços, padrões e cores utilizados são inspirados na cultura de países como Ucrânia e Polônia. Com a vinda de imigrantes europeu para o Brasil a partir do século XIX, a técnica se preservou em vilas e lugarejos incrustados em pequenos municípios ao sul do Brasil e, pouco a pouco, foi ganhando traços e contornos de expressão da nossa brasilidade, com novas configurações e releituras. E é em um desses territórios que a artesã Ágata Grochot permanece mantendo a tradicional técnica viva, com pequenas interpretações como a abundância de flores, pétalas maiores e formatos variados, paisagens gaúchas e também europeias. A técnica é feita com a palha do trigo, um certo tipo usado pelos imigrantes poloneses e italianos para fabricarem chapéu, banco e bandeja. Trata-se de uma palha longa e macia, com cerca de 3 metros. Nos meses de maio, junho e julho, Ágata semeia áreas da sua propriedade, trata contra fungos, ferrugem e em outubro e novembro colhe o trigo, que é colocado em lonas no pátio, depois é seco e limpo. Retira-se a parte de baixo que não é utilizada e limpa-se o cacho para aproveitar a semente no ano seguinte. Ágata seleciona a palha mais larga – que dá mais cobertura à peça portanto utiliza menos palha. As palhas bem fininhas troca com as colegas para fazerem chapéu. Enrolada em “trouxinhas”, a mergulha em uma bacia bem grande com água e acrescenta anilina. Coloca para ferver e em poucos minutos alcança a cor desejada. A palha então é aberta, passada a ferro, e fitada como uma fitinha, comprida. A partir dai a artesã começa a montar os desenhos. 

Sobre quem cria

Ágata Grochot dos Santos é agricultora e artesã. Nessa ordem. É membro do Sindicato Rural, da Associação de Federação Gaúcha dos Trabalhadores Rurais e tem apoio da EMATER. Os bisavós vieram da Polônia e foi com a avó, quando pequena, que ela aprendeu a técnica. Faziam a colagem em cima do papel pardo que o avô trazia da cidade enrolando algum mantimento. Com o ferro de brasa alisavam bem o papel e aplicavam pequenas florezinhas feitas com papel de bala prateado e dourado que eram dobrados e cortados em formato de pétalas. Uma mistura de farinha de trigo e água era a cola utilizada. Ela nunca soube que aquilo que havia conhecido na infância era uma técnica tradicional polonesa, a qual as crianças substituíam a palha de trigo por papel. Mas foi quando lhe pediram que resgatasse técnicas de artesanato típicas da sua região para um projeto de turismo rural que descobriu se tratar da mesma prática que havia adquirido com a avó. “Isso é uma técnica muito antiga, de muitas gerações lá da Europa. Lá, ainda é feita em alguns lugares no interior.” 

Ágata Grochot dos Santos / Crédito das fotos: Tadeu Vilani

Sobre o território

Ágata mora em uma casa típica polonesa localizada na Rota dos Trigais, no município de Santo Antônio do Palma, Rio Grande do Sul. Região de majestosos planaltos, sobre coxilhas, planícies e campos verdejantes. Com altitudes médias de cerca de 650 metros acima do nível do mar, clima temperado e estações do ano bem definidas, a região oferece o ambiente propício para o cultivo do trigo, esta gramínea que é base da alimentação da humanidade há milênios. E foi justamente um projeto de turismo rural na localidade que provocou Ágata a pesquisar sobre os fazeres artesanais tradicionais das culturas eslavas (polonesa e ucraniana), o que lhe trouxe a súbita informação do legado familiar. O modo de fazer tradicional herdado por ela hoje integra a Rota do Turismo Rural das Colônias Polonesas. “Me pediram que pesquisasse o artesanato típico eslavo, polonês e ucraniano. Foi quando descobri que era exatamente igual o que eu já fazia com a minha avó.” O ano de 1886 é considerado como o marco inicial da imigração polonesa no Rio Grande do Sul. Apesar do Paraná ser considerado o estado com maior influência da cultura polonesa no Brasil e cuja imigração foi mais documentada alguns grupos de imigrantes poloneses também se fixaram no Espírito Santo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde uma comunidade de 300 imigrantes (que não conseguiram se adaptar ao clima do Estado da Bahia, para onde primeiramente se encaminharam), migraram para o norte de Porto Alegre. Há quinze anos Ágata se dedica ao resgate e valorização dessa tradição. Nos últimos cinco contou com presença do marido, que deixou o trabalho na cidade e passou a viver, junto com ela, exclusivamente do trabalho com o artesanato. Se tornaram micro produtores rurais, produzindo alimentos e insumos para subsistência. “Por cinco anos o artesanato em palha de trigo foi a única renda da família”. Com o impacto da pandemia, Ágata perdeu o marido para o mercado de trabalho mas confia em dias melhores. Orgulhosa do valioso trabalho que simboliza sua cidade, já garantiu a transmissão do saber para a filha, que já domina a técnica.

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